quinta-feira, 7 de abril de 2011

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"From a certain point onward, there is no turning back. That is the point that must be reached.” — Franz Kafka

Cartas



Gosto de cartas curtas e banais. Que falem sobre o clima ou a cidade. Elas têm o poder de acender a saudade e ao mesmo a presença; nos contornos das palavras, no calor de sua caligrafia. Sem precisar pensar, confortavelmente, como é o sentimento de se estar de verdade com alguém. Conhecer cada curva das letras, poder reler em um tempo tão breve quanto a duração de um beijo. Do primeiro, do último, do póstumo.

domingo, 13 de março de 2011

Anotação de 18/10/2010

Se você para por uma viagem e olha pra trás na sua vida, para as inúmeras fases boas e fases ruins, ainda que momentos singulares de tristeza ou felicidade, você consegue perceber que não há nada que possa te acontecer e você não possa superar assim como não há felicidade que você não possa absorver.


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Sempre carrego comigo, em viagens, bloquinhos de papel pra fazer anotações de coisas que quero transformar em textos. Encontrei perdida esta anotação de 18/10/2010, de uma viagem entre Rio de Janeiro e São Paulo. Resolvi simplesmente colocá-la aqui, ao invés de transformá-la em um texto.

Dedico aos meus amigos do GD Fuckers.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Time of your life



http://tinyurl.com/yh9spe3

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Muros e Grades

http://www.youtube.com/watch?v=Vfq-z24wGnw

Este texto seria completamente desnecessário se eu andasse com uma câmera na mochila. Na verdade, ele é totalmente ineficaz perto do que eu poderia passar com uma única fotografia. Uma fotografia que vive em minha cabeça, uma imagem nítida. Quase posso tocá-la.

Tudo isto, este enorme fato singular, aconteceu em uma de minhas viagens entre Juiz de Fora e Niterói. Uma mais particular, porque, enquanto eu colocava meus fones no ouvido, dentro do ônibus, o motorista veio nos comunicar, irritado, que não poderia mudar seu trajeto como muitos estavam pedindo. Pelo que pude entender, chegaríamos em um horário de engarrafamento e estava rolando uma onda de assaltos na Av. Brasil.

Na época, as minhas viagens de Juiz de Fora a Niterói eram invadidas por uma tranquilidade que até hoje não consigo compreender. Eu saía de Juiz de Fora onde minha vida seria tranquila em relação à minha família e me dirigia pra Niterói, onde minha vida parecia entrar em uma tempestade. Ainda assim, enquanto eu não pisasse com os pés no lado de fora do ônibus, eu era invadido por uma vontade de ouvir um som nos meus fones, ficar deitado tranquilamente na poltrona, raramente gostava de ler um livro, apenas quando eu viajasse à noite. Mas ainda assim, o que eu curtia mesmo era ficar olhando a paisagem e ouvindo música. Havia pontos da viagem que eram meus favoritos. A Serra de Petrópolis, que é simplesmente incrível. Os viadutos do Gentileza, que era o momento em que me tocava que estava chegando ao Rio. Lembro-me de uma favela interminável e, erguendo-se entre suas construções, um outdoor exaltando a beleza do Maracanã. Como eu tinha vontade de tirar uma foto disso. O Rio é realmente muito curioso, não? Gostava também da ponte Rio-Niterói, Ponte Presidente Costa e Silva. Era o momento em que me sentia como se estivesse observando o Rio de um lugar muito alto. Enquanto eu não enxergava nenhum ser humano, mas apenas as construções, ficava imaginando o que pensaria alguém que estivesse tão longe que nos julgasse apenas pelo que fazemos do mundo, pelos prédios, favelas ou pelas avançadas elaborações de engenharia que se pode ver na Baía de Guanabara.

Morei no Ingá, muito próximo ao prédio do Direito da UFF. “Em frente ao Clube Português”, era como eu descrevia o lugar para os taxistas e conhecidos. Morava entre duas favelas e via muita coisa enquanto ficava em silêncio. Esta foi a época em que decidi parar de julgar, mas apenas observar, e foi uma experiência incrível. Morar perto de favelas não é igual à impressão que temos por relatos e pelos jornais, mas ao mesmo tempo não é tão diferente dela quanto dizem os cariocas. Lembro-me de costumar ir buscar um hambúrguer logo na entrada de um dos morros, e ficar por lá comendo, sem ter medo. Dizem que os traficantes não permitem assaltos na entrada da favela, é um lugar mais seguro do que algumas ruas depois.

Perto de minha casa uma mulher morava na rua, altamente magra, viciada em crack. Lembro-me de uma vez em que ela, tremendo e com raiva nos olhos, passou do meu lado me olhando e gritando comigo, me ameaçando. Mas fora do efeito de drogas, ela me trouxe uma das mais tristes lembranças de minha vida. Um dia em que uma tristeza me invadiu de tal forma que não consegui ficar na faculdade, saí no meio da aula e, enquanto me dirigia pro apartamento, ela me abordou, chorando, dizendo que devia quinze reais para os traficantes e que queria parar de usar as drogas. Você até pode me julgar inocente, mas eu senti de tal forma a sinceridade naquele dia, ainda que ela pudesse mudar de idéia por efeitos da abstinência, ainda assim acreditei plenamente em suas intenções. Mas outra coisa que vocês podem não entender direito, mas nesta época eu realmente não tinha dinheiro pra nada. Era tudo contado, se eu queria sair em um fim de semana, tinha de planejar antes por um tempo. Eu realmente não tinha quinze reais pra dar, e tudo o que eu pude fazer foi passar pelo porteiro olhando para o outro lado, porque as lágrimas já haviam invadido meus olhos antes que eu pudesse girar a chave do apartamento e entrar. Sempre vou me sentir em dívida com esta mulher, que sequer sei o nome.

Lembro-me que, fim de semana, via pessoas oferecerem drogas perto da Faculdade de Direito (o morro era literalmente do lado, sua subida ficava na esquina da faculdade). Que imagem estranha. Às vezes entrava em sala e ouvia meus professores falarem, excelentes professores, mas como poderia dar algum crédito às suas falas se via coisas como essa logo em frente ao lugar em que estudava?

Sempre me pegava conversando sobre futebol com os moradores, em um bar próximo à faculdade de Direito. Acho que me sentia melhor conversando com eles do que com as pessoas da minha sala. Achava estranha a impressão que tinha de que as pessoas da minha sala (salve raras e comuns exceções) nunca haviam sofrido na vida; que assunto posso ter com uma pessoa assim?

Havia também o toque de recolher. Depois das dez horas, em dias de semana, era perigosíssimo sair de casa. Eu fui o último da república a aceitar isto. Um dia esqueci-me de comprar comida e, faminto, descobri que não havia nada estocado. Por volta das 23h, resolvi sair e ir ao Sendas (havia um muito próximo de nossa casa) comprar algo pra comer. Por questão de puro acaso não fui assaltado. Rua deserta, um homem me seguindo, mas um carro de polícia estava parado logo a frente, averiguando algum outro incidente, o que o fez o homem parar. Tive de esperar quase uma hora no Sendas até estar certo de que podia voltar pra casa. Melhor dizendo, “casa”.

Mas em síntese, esta época fez com que eu perdesse todo o preconceito com favelas e seus moradores. São pessoas como em qualquer outro lugar, pessoas as quais precisamos compreender. Em alguns pontos, lamentar, em outros, admirar, como quaisquer outras pessoas.

Uma sensação que eu adorava nesta época era a de sair na rua à noite para usar o orelhão. Inicialmente eu não tinha telefone ou celular, o que era simplesmente sensacional. Demorei muito tempo pra aceitar o celular, acho horrível saber que você pode ser encontrado a qualquer instante (agora que tenho um, nunca atendo). Nesta época eu aparecia quando quisesse, à noite, em um orelhão, como em filmes antigos. Tenho até hoje, guardados, todos os cartões de orelhão que usei.

Por toda essa mistura de imagens e sensações, “Muros e Grades” nunca saiu do meu MP4. Estava sempre ouvindo. Sentia a música no momento em que saía de toda a segurança do meu apartamento à noite pra uma rua perigosa, pra usar o orelhão, mas ao mesmo tempo, quando chegava em casa novamente, lembrava de tudo o que eu via por ali em todos os outros horários de todos os outros dias. Quem é o vilão? Quem é o mocinho? Quais são as armas? Existem regras?

De volta ao ônibus, lá estávamos nós, nos aproximando da Av. Brasil. Enquanto uns se benziam mil vezes, outros escondiam celulares, cordões, brincos e outros objetos de valor. Em meio aquele clima de pura tensão, havia um cara estranho, portando apenas uma mochila da Juventus de Turim com algumas camisetas, um caderno e um livro, parado, ouvindo música, estranhamente despreocupado: eu. Acho que se assaltassem aquele ônibus, nem passariam por mim. Pra ser sincero, minha vida também não estava valendo tanto assim pra eu me preocupar com ela.

Eis que em um momento, no engarrafamento, a tensão era total. O ônibus estava parado, minha cabeça encostada no vidro, quando meu olhar distraído despertou e encontrou um cara, provavelmente da minha idade, sem camiseta, os olhos queimando de ódio e ao mesmo tempo incompreensão. Olhávamos um ao outro nos olhos e tudo o que nos separava era um vidro artificial. Nada mais, é incrível. NADA MAIS nos separava. Vivíamos no mesmo mundo, no mesmo país, na mesma cidade, tínhamos a mesma idade, éramos até parecidos fisicamente. Só havia uma coisa entre nós: vidro. Poderia ser um muro, madeira. Ficamos nos observando por muito tempo, sem desviar os olhos, até o ônibus conseguir movimentar-se de novo e nossas estradas seguirem, cada uma pro seu lado. Este instante me fez realmente sentir “Muros e Grades”, é o instante de minha vida que sempre me vem à cabeça quando ouço a música. Fiquei pensando o que aconteceria ali se aquele muro tão artificial não existisse. Não consegui visualizar o que aconteceria, só pude perceber que eu não me importaria.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Um pedaço de história e um convite

“Vendo a vida como um maravilhoso quadro pontilhista, cada ponto em si é uma bobagem. Os pontos se misturam e se transformam. Lá vai a aranha tecendo sua inescapável tapeçaria."

http://tinyurl.com/4kr4cun

Não poderia haver momento melhor pra eu receber esta notícia. Esses dias liguei a televisão e vi um comercial do Rock in Rio, com a mesma música que ouvia quando era pequeno e me matava de vontade de ir, quando o festival era apenas um sonho. Fiquei deprimido em perceber que não estava com o mínimo ânimo de ir. Não estava com o mínimo ânimo de fazer nada, nem queria que nada acontecesse comigo. Ia dizer que não sou uma pessoa de multidões, mas percebo que em grande parte dos tempos sou um enorme solipsista, distante de pessoas. Apego-me mais a ambientes.

Como poderia esquecer meu primeiro semestre de 2009. O que eu pensava ser a pior fase da minha vida, hoje é só um momento visto do alto, um momento que adoro rever. Os amigos que tenho em recordação são idéias, ambientes. Primeiro, toda a praia de Icaraí, que eu caminhava ida e volta todos os dias. A varanda da pousada onde fiquei inicialmente. Depois, o mirante do MAC: ia ao mirante todas as noites e revezava minha visão entre a viva cidade de Niterói e o calmo mar da Baía de Guanabara. Quase ignorava o Rio de Janeiro. Até que descobri um pequeno mirante na Praia das Flechas. Deserto, vazio, virou meu abrigo, meu esconderijo pessoal. O dia podia ser qualquer merda, mas sempre havia o mirante, o Rio de Janeiro e até um cigarro, dependendo de como fosse o dia. Depois descobri que esse mirante era extremamente perigoso, e eu ficava lá tranquilamente até altas horas, como se estivesse completamente seguro. Que cidade artística é o Rio de Janeiro, a arte está no ar de tal forma que você só percebe o quanto foi enfeitiçado por ela quando sai da cidade e volta ao normal. Nesta época, virei uma mistura cultural sem qualquer sentido racional. Enquanto lia poesia concretista brasileira, ouvia Radiohead. Enquanto lia Dostoievski, ouvia Cartola, Arnaldo Antunes. Às vezes me pegava vestido com roupas simbolicamente brasileiras, mas o que tocava em meu mp4 era os dois artistas que invadiram meu corpo como um vírus nesta época: The National e Elliott Smith.

Outra coisa que me ajudou a sobreviver foi o Palmeiras. Que ano simplesmente inacreditável. Quando eu digo que títulos são quase inválidos no futebol, caso não sejam recheados por histórias incríveis, e que estas são mais importantes do que os próprios títulos, as pessoas preferem achar que estou de papo furado. Acompanhei toda a Libertadores isolado em Niterói. Vocês não imaginam o quão difícil é reunir palmeirenses naquela cidade. Talvez por estar longe de casa, de minha família, amigos, tão distante de tudo, foi neste instante que vi o Palmeiras como algo maior que um clube, mas uma casa que se move comigo pra qualquer lugar que eu vá. Lembro de me revezar entre três bares para ver os jogos do Palmeiras, não perdi nenhum. Um deles foi pra mim inesquecível. Em frente à Faculdade de Direito tem um pequeno e clássico bar de esquina, com uma televisão minúscula. Me debruçava no balcão pra ver os jogos, concentrado. Era ali que eu estava, nas oitavas de final, Palmeiras e Sport. Quando o bar lotado me viu inteiramente vestido de palmeirense, eu acabei por promover uma união nunca vista no Rio de Janeiro. Vascaínos, flamenguistas, botafoguenses e tricolores se abraçavam e apoiavam o Sport, tudo isso contra o Marcelo vestido de verde. A partida foi para os pênaltis e eu já estava completamente irritado - sou calmo pra qualquer coisa, mas futebol, definitivamente não. Primeira cobrança, Mozart disperdiça pelo Palmeiras. Só faltava me espancarem no bar. Não vou me fazer de forte: mantive-me firme unicamente porque eu tinha consciência de que o maior goleiro da história do futebol, meu único ídolo, o jogador que nasceu de Libertadores, estava no gol. E não deu outra, com duas defesas do Marcos, ele estava pulando no canto do gramado pra comemorar com a torcida e eu pulando fora do bar antes que se irritassem comigo.

Ao contrário de qualquer falsa impressão que eu possa ter passado, eu gosto muito do Rio de Janeiro. O vejo como um antidepressivo. É um lugar em que eu não me sinto obrigado a pensar tanto, sinto que posso simplesmente ficar bêbado por aí, sair sorrindo com meu cabelo todo bagunçado e meus óculos escuros grandes demais pra minha cara. Ao contrário de Sampa, que é pra mim como um espelho. Quando entro em Sampa, minha cabeça vai à mil, sequer gosto de conversar, gosto de pensar, viver dentro de mim, correr pra dentro até que eu mesmo termine e meus pensamentos caiam em algum vazio. Nem precisa me perguntar que lugar prefiro, né? Não viveria sem visitar o Rio regularmente, mas não troco a sinceridade de Sampa por lugar nenhum. É engraçado, mas se você passa a vida correndo do pessimismo, você acaba completamente pessimista, mas se você mergulha de cabeça no pessimismo, sempre surge uma esperança. Sampa é a cidade onde você pode ter um grupo de amigos incríveis, cada um individualmente muito interessante, e ao mesmo tempo seu grupo ser apenas mais um em uma multidão. Entendo que detestem a sensação, mas não há nada que eu goste mais do que ser algo especial isolado dentro de mim, que ninguém nunca descobrirá. Só assim pode haver sentido em continuar sendo eu mesmo. Acho que é exatamente por isso que a fama tem um poder tão destruidor. Imaginem a expectativa que causa uma multidão, se um dos grãos de arroz que você conhece é tão especial? Irônico ou não, a cidade mais pessimista do mundo pode ser a única coisa a despertar uma pontada de otimismo. Toda a sujeira das ruas, a injustiça, o medo, o cansaço das pessoas, felizmente ou infelizmente, podem construir coisas belas. E é exatamente neste cenário que já sinto meus pés pisando, mais especificamente no Saci Hostel, em Sumaré, pra ver The National.

Pensei em dizer que era minha banda favorita, mas aí senti o pavor que sinto quando imagino um questionário em minha frente. As verdades são tão frágeis, o Devir é tão verdadeiro. Às vezes tenho a sensação de que inclusive o céu ou a ciência são meras construções, que podem despedaçar a qualquer instante. E como seria bonito. Já tive várias bandas como favoritas, hoje vejo que cada uma ocupa um espaço muito específico; entre elas não existe a melhor porque entre elas não existe comparação.

Mas, deixando a divagação de lado, o fato é que hoje estava no estágio com o pensamento da mesma forma que tem estado por muito tempo: nada na vida realmente vale a pena, a não ser que você se engane um pouco. Como nos formam desde pequenos para sermos robôs. Nos potencializam racionalmente ao máximo, criam diversos objetivos artificiais para que nos sintamos impulsionados a exercer nosso potencial racional ao máximo, mas ao mesmo tempo trabalham por nossa banalização, pra que não fiquemos perigosos. Eis o que somos, máquinas humanas. Meu celular vibrou oito vezes na mesa e eu já ia fazer o de praxe: fazê-lo parar de vibrar e deixar que ele continue tocando. Percebi, então, que não era uma ligação, mas que eu havia recebido quatro SMS simultaneamente. Quatro pessoas me contando que o show do The National havia sido confirmado no Brasil.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi quando ouvi o “Alligator” pela primeira vez, em Niterói. Ouvi a primeira música do álbum, “Secret Meeting”, e a identificação foi simplesmente instantânea, como se fosse a banda que eu procurei minha vida inteira. Coloquei o álbum no mp4 e fui pra garagem do prédio, ouvir inteiro, sozinho, sentado, andando em círculos (sempre no sentido anti-horário, meu TOC). Ouvi duas vezes seguidas no estacionamento. A terceira já foi no MAC, olhando as luzes de Niterói. A partir disto, a banda já era parte viva e pulsante de mim.

Vendo estas mensagens, pensando no show, pensando em pisar no Saci Hostel pela segunda vez depois de estar lá com grandes amigos, um de cada canto deste enorme país, pro show de outra banda que marcou minha vida (Green Day). Pensar em tudo o que eu sou e que não fica exposto em nossa sociedade mecânica. Só posso pensar que há um imenso universo dentro de mim, uma liberdade sem tamanho. O homem livre é livre em qualquer circunstância social. Será?

Trecho de "Pra ser sincero"

"O estúdio onde eu ensaiava ficava em Botafogo, eu ia para casa a pé. Gosto muito de caminhar. As baterias dos meus carros sempre morrem antes que eles percam o cheiro de carro novo. Uma dessas caminhadas eu fiz no fim da da tarde de um dia especial. No Maracanã, Flamengo e Grêmio disputariam o título da Copa do Brasil. Passavam ônibus cheios de flamenguistas. Os que me reconheciam mandavam recados pouco amigáveis, extensivos a todos os habitantes do RS.
Assisti ao jogo sozinho, no apartamento escuro, só iluminado pela TV. A cidade, parada. Excepcionalmente silenciosa. Abrimos o marcador, Grêmio 1 a 0. Uma gritaria de vascaínos vinda dos prédios vizinhos dialogou com meus próprios gritos. Segue o jogo, 1 a 1. Euforia na noite carioca, só superada pelo carnaval de vozes que explodiu quando Romário virou o jogo. Flamengo 2 a 1. Faltando alguns minutos para terminar a partida, desliguei a TV. Sempre acho que, se eu não estiver assistindo ao jogo, o tempo passará mais lentamente. Mais tempo de jogo aumentaria as chances de acontecer o empate que daria o título ao Grêmio. Uma visão otimista da covardia da avestruz.
Tinha dúvida de que o gol aconteceria, mas tinha certeza de que, se acontecesse, a vizinhança vascaína me avisaria. Passava o tempo e eu não olhava para o relógio. A velha esperança de que, se não olhasse, o tempo passaria mais devagar. Silêncio total. Quantos minutos teriam passado? Mais silêncio, tempo demais. Por que ninguém gritava, nem vascaínos secadores nem flamenguistas campeões? Não resisto, ligo a TV. Já não estavam transmitindo o jogo. Toca o telefone, minha irmã, chorando desfaz o suspense: éramos campeões. Havia mais de quinze minutos! Os vascaínos devem ter ido dormir antes do fim do jogo. Sofri quinze minutos desnecessários, já campeão.
Futebol é uma bobagem, né? Vendo a vida como um maravilhoso quadro pontilhista, cada ponto em si é uma bobagem. Os pontos se misturam e se transformam. Lá vai a aranha tecendo sua inescapável tapeçaria. Minha irmã certamente não chorava só por um bando de caras com camisas iguais correndo atrás de uma bola. Projetamos muitas coisas sobre muitas outras coisas. Se misturam e se transformam."

Trecho de "Pra ser sincero - 123 variações sobre um mesmo tema" - Humberto Gessinger

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Amor



Toda e cada palavra de amor é uma metáfora de uma mentira esquecida.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Amor-próprio

Antes de contar minha estória, convém dar algumas explicações, pra que ela não soe irreal. É verdade que sou ateu tanto quanto é verdade que odeio grande parte dos ateus, principalmente em nossa geração. Os ateus hoje em dia professam o ateísmo como se este fosse sinônimo de inteligência, sem se dar conta de que seu ateísmo é um enorme produto social (e eu, sinceramente, não respeito produtos sociais). Acho um absurdo que não percebam que é completamente social que hoje em dia soe um completo absurdo crer em Deus. Apesar disto, sou ateu, talvez da mesma forma que eles. Mas corro deles ao ser completamente aberto a ouvir quem crê, seja lá qual for a crença.
Eis que, certo dia, um rapaz, ao ser informado de que sou ateu, se põe a dissertar sobre suas crenças, pressupondo que sou um dos que pregam o ateísmo como religião. Segundo ele, não há céu ou inferno, mas o mesmo ocorre com todas as pessoas. "É tudo questão de amor-próprio", ele dizia. Segundo ele, após a morte, toda pessoa se torna exatamente o oposto do que foi em vida. Se a pessoa possuía amor-próprio, vai para o "inferno"; se não, vai para o "céu". Fazia sentido, muito superficialmente. Tentei lhe explicar que uma pessoa realmente infeliz, ainda que se tornasse o oposto do que é, continuaria a ser infeliz. Ele insistia matematicamente que o que eu dizia era um absurdo sem sentido lógico. E é verdade. Descobri que não faz sentido explicar algumas coisas, há muitas coisas neste mundo que o homem só aprende sentindo, irracionalmente. Mas quem sou eu para torcer para que ele sinta? Não posso desejar.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Solidão

"A solidão é fera, a solidão devora.
É amiga das horas prima irmã do tempo,
E faz nossos relógios caminharem lentos,
Causando um descompasso no meu coração.

A solidão dos astros;
A solidão da lua;
A solidão da noite;
A solidão da rua."

Alceu Valença - Solidão

(...)




A morte é uma tortura
A gente luta, a gente dura
E é, por fim, o que se quer

Morro em tua boca
Morro em teu corpo
Morro em teu copo
E em que te resta entre as pernas

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A noite

O prazer é sempre traiçoeiro e insuficiente. É o que dizem as pessoas sobre as drogas. É o que digo sobre amor, sexo, paternidade, dor, morte.
São duas horas da madrugada. Minha consciência explode, mas não pesa. O que pesa é o ar, sobre cada partícula de meu corpo, como se avisasse as horas ou quantas horas se passou. E foram muitas, infinitas. Uma vida poderia começar, ou terminar. Uma pessoa poderia se matar, ou encontrar um motivo pra ser feliz. Pra mim, qualquer acontecimento, por mais banal que fosse, dependia primariamente de algo. Era uma escolha, uma necessidade, o inevitável.
A cada passo, a certeza de que tudo estava errado, em seu lugar certo. A marca da nicotina em meus dedos. Sua maior vilania e minha maior inocência. Ninguém nunca terá idéia da dor de minha carne: viva, pulsante, independente. Pura e vil.
Um grupo de pessoas se diverte. Banais, vulgares. Grito a eles minha raiva. Minha raiva por não compreenderem um terço do que sou. Besteira, as pessoas banais provavelmente pensam o mesmo. Como saberei se não sou apenas um vulgar incompreendido? Poucas pessoas têm valor atribuído a seus sentimentos. É um privilégio tolo.

Não posso terminar. Escrever já não ajuda em nada.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

IX - O Diabo. A alucinação de Ivan Fiódorovitch.




IX
O Diabo. A alucinação de Ivan Fiódorovitch.

Não sou médico e, no entato, sinto que chegou o momento de fornecer algumas explicações sobre a doença de Ivan Fiódorovitch. Digamos imediatamente que estava na iminência de uma febre nervosa, tendo a doença acabado por triunfar de seu organismo enfraquecido. Sem conhecer a medicina, arrisco esta hipótese de que tinha ele talvez conseguido, por um esforço de vontade, conjurar a crise, esperando, bem entendido, a ela escapar. Sabia-se doente, mas não queria abandonar-se à doença naqueles dias decisivos em que devia mostrar-se, falar ousadamente, justificar-se a seus próprios olhos. Tinha ido ver o médico vindo de Moscou a chamado Iekaterina Ivánovna. Depois de havê-lo auscultado e examinado, conluiu o facultativo pela existência de um desarranjo cerebral e não ficou nada surpreso com uma confisão que Ivan lhe fez, no entanto, com repugnância. "As alucinações são muito possíveis no seu estado, mas seria preciso controlá-las... aliás o senhor deve tratar-se seriamente, senão isso se agravará.". Mas Ivan Fiódorovitch não deu importância a esse sábio conselho: "Tenho ainda força para andar. Quando eu cair, será diferente. Tratará de mim quem quiser!".
Tinha quase consciência de seu delírio e fixava obstinadamente certo objeto, em cima do divã, em frente dele. Ali apareceu de repente um indivíduo, que entrou Deus sabe como, porque não estava ele ali quando chegou Ivan Fiódorovitch, após sua visita a Smierdiákov. Era um senhor, ou uma espécie de cavalheiro russo, qui frisait la cinquantaine, como dizem os franceses, um pouco grisalho, os cabelos longos e espessos, a barba em ponta. Trazia um paletó marrom, evidentemente de casa de um bom alfaiate, mas já usado, datando de cerca de três anos e completamente fora de moda. A roupa branca, o comprido lenço de pescoço, tudo lembrava o cavalheiro elegante; mas a roupa, observada de perto, não estava lá muito limpa, e o lenço de pescoço bastante gasto. Suas calças de quadrados assentavam-lhe bem, mas eram demasiado claras e demasiado justas, como não se usam mais atualmente, da mesma maneira seu chapéu de feltro branco, malgrado a estação. Em sumna, um aspecto ao mesmo tempo decente e de quem estava em dificuldades financeiras. O cavalheiro parecia ser um desses antigos proprietários rurais que floresciam no tempo da servidão: vivera na sociedade, tivera outrora relações conservadas talvez até agora, mas pouco a pouco, empobrecido após as dissipações dajuventude e a recente abolição da servidão, tornara-se uma espécie de parasita de boa companhia, recebido em casa de seus antigos conhecidos por causa de seu gênio acomodatício e a título de homem decente, que se pode admitir à sua mesa em qualquer ocasião, embora num lugar modesto. Esses parasitas, de gênio afável, que sabem contar uma história, organizar uma partida, detestar as incumbências de que os encarregam, são em geral viúvos ou soleirões; por vezes têm filhos, sempre educados longe, em casa de alguma tia, a respeito da qual o cavalheiro quase nunca fala quando em boa companhia, como se se envergonhasse de tal parentesco. Acaba por se desacostumar de seus filhos, que lhe escrevem de longe em longe, por ocasião de seu aniversário ou do Natal, cartas de felicitações às quais ele por vezes responde. A fisionomia daquele visitante inesperado era mais afável que bonachona, pronta à amabilidade de acordo com as circunstâncias. Não tinha relógio, mas usava um lornhão de tartaruga, presto por uma fita preta. O dedo médio de sua mão direita estava ornado com um anel de ouro maciço com uma opala barata. Ivan Fiódorovitch mantinha-se em silêncio, resolvido a não travar conhecimento. O visitante aguardava, como um parasita que acaba de deixar o quato que lhe é reservado, à hora do chá, para fazer companhia ao dono da casa, mas que se cala, estando este absorvido em suas reflexões, pronto todavia a uma amável prosa, contanto que o dono da casa a comece. De repente seu rosto revelou preocupação.
-Escuta - disse ele a Ivan Fiódorovitch -, desculpa-me, quero somente lembrar-te: foste à casa de Smierdiákov, a fim de te informares a respeito de Iekaterina Ivánovna, mas vieste embora sem nada saber. Decerto te esqueceste...
-Ah! Sim! - disse Ivan preocupado. - Esqueci-me... Não importa, aliás, deixemos isso para amanhã. A propósito - disse ele, irritado, ao visitante -, era eu quem devia ter-me lembrado disso ainda há pouco, porque me sentia angustiado a respeito. Bastou que tivesses surgido para que acredite que essa sugestão partiu de ti.
-Pois bem! não o creio - e o cavalheiro sorriu com ar amáve. - A fé não se impõe. Aliás, neste domínio, as provas, mesmo materiais, são ineficazes. Tomé acreditou porque queria acreditar, não por ter visto o Cristo Ressuscitado. Assim, os espíritas... gosto muito deles... imagina que acreditam servir à fé, porque o Diabo lhes mostra seus chifres de vez em quando. "É uma prova material da existência do outor mundo." O outro mundo demonstrado materialmente! Que idéia! Enfim, isto provaria a existência do Diabo, mas não a de Deus. Quero passar para uma sociedade idealista, a fim e fazer-lhes oposição.
-Escuta - disse Ivan Fiódorovitch, levantando-se -, creio que estou delirando, conta o que quiseres, pouco me importa! Não me exasperarás como antes. Somente, tenho vergonha... Quero andar pelo quarto... Por vezes deixo de vert-te, de ouvir-te, mas adivinho sempre o que queres dizer, porque "sou eu quem fala e não tu!" Mas não sei se dormia, na derradeira vez, ou se te vi realmente. Vou aplicar na minha cabeça um guardanapo molhado, talvez assim te dissipes.
Ivan foi buscar um guardanapo e fez como dizia, depois do que pôs-se a andar para lá e para cá.
-Causa-me prazer nos tratarmos por "tu" - disse o visitante.
-Imbecil, acreditas que vou tratar-te por "vós"? Sinto-me disposto... se pelo menos não tivesse dor de cabeça... mas não me venhas com tanta filosofia como na última vez. Se não podes ir-te embora, inventa pelo menos algo de engraçado. Conta-me mexericos, porque não passas de um parasita. Que pesadelo tenaz! Mas não te temo. Acabarei vencendo-te. Não me internarão!
-C'est charmant! parasita. é meu papel, com efeito. Que sou eu na terra, senão um parasita? A propósito, surpreende-me ouvir-te; palavra, começas a tomar-me por um ser real e não pelo produto apenas de tua imaginação, como o sustentavas da outra vez.
-Nem um instante tomo-te por uma realidade - exclamou Ivan, com raiva - És uma mentira, um fantasma de meu espírito doente. Mas não sei como desembaraçar-me de ti, vejo que será preciso sofrer algum tempo. És uma alucinação, a encarnação de mim mesmo, de uma parte apenas de mim... de meus pensamentos e de mus sentimentos, mas dos mais vis e dos mais tolos. A este respeito, poderias mesmo interessar-me, se tivesse tempo para perder contigo.
-Com licença, vou confundir-te: ainda há pouco, perto do lampião, quando deste com Aliócha, gritando-lhe: "Soubeste-o por ele? Como sabes que ele vem ver-me?", era a meu respeito que falavas. Portanto, acreditaste um instante que eu existo realmente - disse o cavalheiro com um sorriso delicado.
-Sim, era um fraqueza... mas não podia acreditar em ti. Talvez te tenha visto somente em sonho, e não na realidade, na derradeira vez.
-E por que foste tão duro com Aliócha? Ele é encantador, sinto-me culpado para com ele, por causa do Stáriets Zózima.
-Como ousas falar de Aliócha, lacaio! - disse Ivan, rindo.
-Injurias-me rindo, bom sinal. Aliás, estás bem mais amável comigo do que da última vez e compreendo por quê: essa nobre resolução...
-Não me fales disto - gritou Ivan furioso.
-Compreendo, compreendo, c'est noble, c'est charmant, vais amanhã defender teu irmão, tu te sacrificas... c'est chevaleresque...
-Cala-te, senão, toma cuidado com os pontapés!
-Em certo sentido, isso me causará prazer, porque meu objetivo será atingido; se ages assim, é que crês na minha realidade, não se trata um fantasma a pontapés. Basta de brincadeiras! Podes injuriar-me, mas vale mais a pena ser um pouco mais delicado, mesmo comigo. Imbecil, lacaio! Que expressões!
-Injuriando-te, injurio-me! Tu és eu mesmo, mas com outro focino. Exprimes meus próprios pensamentos... e nada podes dizer de novo!
-Se nossos pensamentos se encontram, isto me causa honra - disse graciosamente o cavalheiro.
-Somente tu escolhes meus pensamentos mais estúpidos... És besta e vulgar. És estúpido. Não posso suportar-te! Que fazer, que fazer?! - murmurou Ivan entre os dentes.
-Meu amigo, quero, no entanto, permanecer um cavalheiro e ser tratado como tal - disse o visitante com certo amor-própri, aliás conciliante, bonachão. - Sou pobre, mas... não direi muito honesto, mas... admite-se geralmente como um axioma que sou um anjo decaído. Palavra, não posso imaginar como pude, outrora, ser um anjo. Se o fui em algum dia, foi há tanto tempo que não é um pecado esquecê-lo. Agora, atenho-me apenas à minha reputação de homem decente e vivo como posso, esforçando-me por ser agradável. Gosto sinceramente dos homens: caluniaram-me muito. Quando me transporto aqui para a Terra, entre vocês, minha vida toma uma aparência de realidade, e é o que mais me agrada. Porque o fantástico me atormenta como a ti mesmo, de modo que gosto do realismo terrestre. Entre vocês, tudo é definido, há fórmulas, geometria; entr nós, só equações indeterminadas! Aqui, passeio, sonho (gosto de sonhar). Torno-me supersticioso, não rias, peço-te; a superstição me agrada. Adoto todos os hábitos de vocês; gosto de ir aos banhos publicos, imagina, estar na estufa com os comerciantes e os popes. Meu sonho é encarnar-me, mas definitivamente , em algum comerciante obeso e partilhar de todas as suas crenças. Meu ideal é ir à igreja e lá acender uma vla, de todo o coração, palavra! Então meus sofrimentos terão fim. Gosto também dos remédios de vocês; na primavera havia uma epidemia de varíola, fui vacinar-me. Se soubesse como estava eu contente! Dei dez rublos para "nossos irmãos eslavos"!... Não me ouves. Não estás no teu estado normal, hoje... - O cavalheiro fez uma pausa. - Sei que foste ontem consultar aquele médico... pos bem! como vais? Que te disse ele?
-Imbecil!
-Em compensação, tens tanto espírito! Invectivas de novo. Não é por interesse que te perguntava isso. Podes não responder. Eis meus reumatismos que se apoderam de mim de novo.
-Imbecil!
-Continuas? Lembr-ome ainda de meus reumatismos do ano passsado.
-O Diabo com reumatismo?
-Por que não? Se m encarno, tenho de suportar todas as consequências. Satana sum et nihil humani a me alienum puto.
-Como, como? Satana sum et nihil humani... Nao está mal para o Diabo!
-Sinto-me feliz por ver que afinal te causo satisfação.
-Isto não aprendeste de mim - disse Ivan, surpreso - isto jamais me ocorreu. É estranho...
-C'est du nouveau, n'est-ce pas? Desta vez agirei lealmente e te explicarei uma coisa. Escuta. Nos sonhos, sobretudo durante os pesadelos que provêm dum desarranjo de estômago ou de outra coisa, o homem tem por vezes visões tão belas, cenas da vida real tão complicadas, atravessa tal sucessão de acontecimentos, de peripécias, inesperadas, desde as manifestações mais altas até as menores bagatelas, que, juro-te, o próprio Liev Tolstói não as imaginaria. Entretanto, esses sonhos ocorrem não aos escritores, mas a pessoas comuns: funcionários, jornalistas, popes... Um ministro chegou a confessar-me que suas melhores idéias lhe vinham quando dormia. é o mesmo agora; digo coisas originais, que nunca te vieram ao espírito, como nos pesadelos, entretanto, não sou senão tua alucinação.
-Mentes. Teu fim é persuadir-me de que existes e eis que tu mesmo pretendes ser um sonho.
-Meu amigo, escolhi hoje um método particular que te explicarei em seguida. Espera um pouco, onde estava eu? Ah! sim! Resfriei-me, mas não entre vocês, lá mesmo...
-Lá mesmo, onde? Dize, pois, demorarás ainda muito tempo? - exclamou Ivan, quase desesperado. Parou, sentou-se sobre o divã, pgou de novo a cabeça entr as mãos. Arrancou o guardanapo molhado e atirou-o fora com despeito.
-Estás com os nervos doentes - observou o cavalheiro com ar displicente, mas amigável. - Estás com raiva de mim porque me resfriei, entretanto aconteceu da maneira mais natural. Conrria eu para uma festa diplomática, em casa duma grande dama de Petersburgo, que manejava a seu gosto os ministros. De casaca, gravata branca, enluvado, no entanto estava ainda Deus sabe onde, e para chegar à Terra era preciso transpor o espaço. Decerto, não é senão um instante, mas a luz do Sol leva oito minutos e, imagina, de casaca e de colete aberto. Os espíritos não gelam, mas quando me encarnei... em suma, agi descuidadamente e aventurei-me; no espaço, no éter, na água... faz um frio, nem se pode mesmo chamar isso de frio, imagina: cento e cinquenta graus abaixo de zero. Conhece-se a brincadeira de jovens aldeãs: quando gela a trinta graus, propõem a algum simplório lamber um machado; a língua gela instantaneamente, o simplório arranca a pele e são apenas trinta graus. A cento e cinquenta graus, bastaria, penso, tocar um machado com um dedo para que este desapareça... se pelo menos houvesse um machado no espaço...
-Mas será possível? - interrompeu, distraidamente, Ivan Fiódorovitch. Lutava com odas as suas forças para resistir ao delírio e não afundar na loucura.
-Um machado? - repetiu o visitante com surpresa.
-Mas sim, que será feito dele lá? exclamou Ivan com uma obstinação colérica.
-Um machado no espaço? Quelle idée! Sese encontrar bem longe da Terra, penso que se porá a girar em torno sem saber por quê, à maneira de um satélite. Os astrônomos calcularão quando se levantará e quando se porá. Gatsuk pô-lo-á nno seu almanaque, eis tudo.
-És estúpido, horrivelmente estúpido! Prega mentiras mais espirituosas, ou não te darei ouvidos. Queres convencer-me pelo realismo de teus processos, persuadir-me de tua xistência. Não creio nela!
-Mas não estou mentindo, tudo iso é verdade. Infelizmsnte, a verdade quas nunca é espirituosa. Vejo que esperas de mim algo de grande, talvez de belo. É lamentável, porque só dou o que posso...
-Não me venhas com filosofia, pedaço de asno!
-Como posso eu filosofar, quando estou com todo o lado direito paralisado, obrigando-me a gemer? Consultei a faculdade; sabem diagnosticar maravilhosamente, explicam-nos a doença, mas são incapazes de curar. Havia lá um estudante entusiasta: "Se o senhor morrer", dizia le, "conhecerá exatamente a natureza de seu mal!". Têm a mania de dirigir-nos a especialistas: nós nos limitamos a diagnosticar, vá ver fulano, ele o curará. Não se encontra mais absolutamente o médico à moda antiga, que tratava todas as doenças. Agora só há especialistas, que fazem publicidade. Para uma doença no nariz enviam a gente a Paris, ao consultório de um especialista europeu. Ele examina o nariz da gente. "Não posso", diz ele, "curar senão a narina direita, porque não trato as narinas esquerdas, não é minha especialidade. Vá a Viena; há lá um especialista para as narinas esquerdas." Que fazer? Recorri aos remédios de curandeiras, um médico alemão aconselhou-me que esfregasse no corpo, após o banho, mel e sal. Fui aos banhos só por prazer e me besuntei em pura perda. Em desespero de causa, escrevi ao Conde Mattei, de Milão; enviou-me um livro e umas bolnhas. Que Deus lhe perdoe! Imagina que o extrato de malte de Hoff curou-me. Tinha-o comprado por acaso, tomei um frasco e meio e tudo desapareceu radicalmente. Estava resolvido a publicar uma declaração nos jornais, porque a gratidão falava dentro de mim, mas foi outra história, nenhuma redação a aceitou! "É demasiado reacionária", dizem, "ninguém acreditará nisso, le Diable n'existe point. Publique isso anonimamente." Mas de que vale uma declaração anônima? Brinquei com os redatores: "Ser reacionário", dizia-lhes, "é crer em Deus em nossa época, mas eu, eu sou o Diabo". "Decerto, toda gente crê no Diabo, contudo é impossível, poderia isso prejudicar o nosso programa. alvez... sob uma forma humorística..." Mas então, pensei, não seria espirituoso. E minha declaração não apareceu. Isto ficou-me pesando no coração. Os melhores sentimentos, tais como a gratidão, estão formalmente proibidos para mim, por causa de minha posição social.
-Voltas a cair na filosofia? - disse Ivan, de dentes cerrados.
-Deus me livre! Mas a gente não pode imperdir-se de queixar-se por vezes. Sou caluniado. Tu m tratas a todo momento de imbecil. Vê-se bem que és um homem jovem. Meu amigo, só há o espírito. Recebi da natureza um coração bom e alegre, "também compus vaudevilles". omas-me, creio, por um velho Khlestakov, mas meu destino é bem mais sério. Por uma espécie de decreto inexplicável, tenho por missão "negar", e no entanto sou visceralmente bom e inapto para a negação. "Não! tens de negar! Sem negação, não há crítica, e que seria das revistas sem a crítica? Só restaria uma hosana. Mas isto não basta para a vida, é preciso que esse hosana passe pelo cadinho da dúvida, etc." Aliás, não me meto em tudo isto, não fui eu quem inventou a crítica, não sou o responsável por ela. Pois bem! teno servido de bode expiatório, obrigaram-me a fazer crítica e a vida começou. Compreendemos essa comédia; quanto a mim, aspiro ao nada. Não, é reciso que vivas, dizem-me, porque sem ti nada existiria. Se tudo fosse razoável na Terra, nada se passaria nela. Sem ti, nada de acontecimentos; ora, são precisos os acontecimentos. Cumpro, pois, minha missão, bm a contragosto, para suscitar acontecimentos, e realizo o irracional, cumprindo ordem. As pessoas levam essa comédia a sério, malgrado todo o seu espírito. Para elas é uma tragédia. Sofrem, evidentemente... em compensação, vivem uma vida real e não imaginária, porque o sofrimento é a vida. Sem o sofrimento, que prazer ofereceria ela? Tudo se assemelharia a um Te-Deum interminável; é santo, mas bastante tedioso. E eu? Eu sofro e, no entanto, não vivo. Sou a incógnita de uma equação. Sou o espectro da vida, que perdeu a noção das coisas, e esqueço até o meu nome. Ris?... Não, não ris, zangas-te de novo, como sempre. Ser-te-ia preciso sempre inteligência; ora, repito-te, daria toda essa vida sideral, todos os graus, todas as honras, para encarnar-me na pele duma vendedora obesa e ir queimar velas na igreja.
-Tu também não crês em Deus - disse Ivan, com um sorriso cheio de ódio.
-Como dizer, se falas seriamente...
-Deus existe ou não existe? - insistiu Ivan encolerizado.
-Ah! é sério, então? Meu caro, Deus é-me testemunha de que não sei de nada, não posso dizer melhor.
-Não, tu não existes, tu és eu mesmo e nada mais! Não passas de uma quimera!
-Se queres, tenho a mesma filosofia que tu, é verdade. je pense, doc je suis, eis o que é certo; quanto ao resto, quanto a todos esses mundos, Deus e o próprio Satã, tudo isso não me é provado. Têm eles uma xistência própria, o serão apnas emanação de mim, o desenvolvimento sucessivo de meu "eu", que existe temporal e pessoalmente... mas detenho-me, porque tenho a impressão de que vais bater-me.
-Farias melhor se me contasses uma anedota!
-Eis uma, precisamente no quadro de nosso tema, isto é, mais ma lenda que anedota. Tu me censuras minha incredulidade. Mas, meu caro, não sou eu só assim: entre nós, todos estão agora perturbados por causa das ciências de vocês. Enquanto havia os átomos, os cinco sentidos, os quatro elementos, a coisaia bem ainda. Os átomos já eram conhecidos na Antiguidade. Mas vocês descobriram "a molécula química", o "protoplasma", e o diabo sabe ainda o quê! Aprendendo isso, os nossos baixaram a cauda. Foi a barafunda; sobretudo a superstição, os mexericos proliferaram; fica sabendo que temos disso, tanto quanto voc~es, talvez mesmo um pouco mais, e afinal tamb´m as declarações: há igualmente entre nós uma seção em que recebemos certas "informações". Pois bem, essa lenda de nossa Idade Média, da nossa, não da de vocês, não merece nenhum crédito, exceto entre gordas vendedoras, as nossas, não as de vocês. Tudo quanto existe entre vocês existe também entre nós; revelo-te este mistério por amizade, se bem que seja proibido. Essa lenda fala, pois, do paraíso. Havia na terra certo filósofo que negava tudo, as leis, a consciência, a fé, sobretudo a vida futura. Morreu pensando entrar nas trevas do nada e ei-lo em presença da vida futura. Espanta-se, indigna-se: "Isto", diz ele, "é contrário às minhas convicções". E foi condenado por isso... Desculpa-me, transmito-te esta lenda como ma contaram... Portanto, foi ele condenado a percorrer nas trevas um quatrilhão de quilômetros (porque contamos também em quilômetros, agora), e quando tiver ele acabado o seu quatrilhão, as portas do paraíso se abrirão diante dele e tudo lhe será perdoado...
-Que tormentos há no outro mundo, além do quatrilhão? - perguntou Ivan com estrnaha animação.
-Que tormentos? Ah! não me fales! Outrora, havia-os para todos os gosto; agora, é sempre mais o sistema das torturas morais, "os remorsos da consciência" e outras pataratas. Devemos isso à "doçura dos costumes" de vocês. E quem tira proveito disso? Somente os que não têm consciência, porque zombam dos remorsos! Em compensação, as pessoas decentes, que conervaram o sentimento da honra, sofrem... Eis o que acontece com as reformas operadas em terreno malpreparado e copiadas de instituições estrangeiras. São deploráveis! O fogo de outrora valia melhor. O condenado ao quatrilhão olha, pois, em redor de si, depois se deita atravessado na estrada: "Não ando, por princípio recuso!" Pega a alma de um ateu russo esclarecido e mistura-a com a do profeta Jonas, que se aborreceu três dias e três noites na barriga de uma baleia, e obterás o nosso pensador recalcitrante.
-Sobre que se estendeu ele?
-Havia certamente alguma coisa sobre a qual se estenderia. Não estás brincando?
-Viva! - exclamou Ivan, com a mesma animação. Escutava com uma curiosidade inesperada. - Pois bem! Continua ele deitado?
-Mas não, ao fim de mil anos, levantou-se e pôs-se a andar.
-Que asno! - Ivan deu uma risada nervosa e pôs-se a refletir. - Não será a mesma coisa ficar deitado eternamente ou marchar um uatrilhão de verstas? Mas perfaz isso um bilhão de anos?
-E até mesmo mais. Se houvesse um lápis e papel, poder-se-ia calcular. Faz muito tempo que ele chegou, e é aqui que começa a anedota.
-Como? Mas onde arranjou ele um bilhão de anos?
-Passa sempre na nossa Terra atual! A Terra reproduziu-se talvez um milhão de vezes; gelou-se, fendeu-se, desagregou-se, depois decompôs-se em seus elementos, e de novo as águas recobriram a terra. Em seguida, ofi novamente um cometa, depois um sol donde saiu o globo. Esse ciclo se repete talvez uma infinidade de vezes, sob a mesma forma, até o mínimo detalhe. É mortalmente aborrecedor...
-POis bem! Que aconteceu quando ele acabou?
-Assim que ele entro no paraíso, dois segundos, de relógio na mão, não se tinham passado (se bem que seu relógio, na minha opinião, deve ter-se decomposto em seus elementos durante a viagem) e já exclamava que, por aqueles dois segundos, bem valia fazer não só um quatrilhão de quilômetros, mas um quatrilhão de quatrilhões, à quatrilhonésima potência! Em suma, canto hosanas, exagerou mesmo, a ponto de pensadores mais dignos recusarem estender-lhe a mão nos primeiros tempos; tornara-se demasiado bruscamente conservador. É o temperamento russo. Repito-o, é uma lenda. Eis as idéias que têm em curso entre nós a respeito dessas matérias.
-Apanhei-te! - exclamou Ivan com uma alegria quase infantil, como se lhe voltasse a memória. - Fui eu mesmo que inventei essa anedota do quatrilhão de quilômetros! Tinha então dezessete anos, estava no ginásio... Contei-a a um de meus camaradas, Koróvkin, em Moscou... Essa anedota é muito característica, tinha-a esquecido, mas lembrei-me dela inconscientemente; não foste tu que a contaste! É assim que uma multidão de coisas nos volta à memória, quando marchamos para o suplício... ou quando sonhamos. Pois bem, não passas de um sonho!
-A violência com que me negas assegura-me que, apesar de tudo, crês em mim - disse o cavalheiro jovialmente.
-Absolutamente! não creio em ti nem uma centésima parte!
-Mas uma milésima cês. As doses homeopáticas são talvez as mais fortes. Confessa que crês em mim, pelo menos uma décima milésima parte...
-Não! - gritou Ivan irritado. - Aliás, gostaria bem de crer em ti!
-Eh! eh! eh! Por fim, confessou! Mas sou bom, vou ajudar-te. Fui eu que te apanhei! Contei-te de propósito, essa anedota para desenganar-te definitivamente a meu respeito.
-Mentes. O fim de tua aparição é convencer-me de tua existência.
Precisamente. Mas as hesitações, a inquietação, o conflito entre a fé e a dúvida constituem por vezes tal sofrimento para um homem escrupuloso como tu, que melhor vale enforcar-se. Sabendo que crês um pouco em mim, contei-te essa anedota para entregar-te definitivamente à dúvida. Conduzo-te entre a fé e a incredulidade alternativamente, não sem um fito. É um novo método; quando cessares completamente de crer em mim, pôr-te-ás a ssegurar-me que não sou um sonho, que existo verdadeiramente, conheço-te; então meu fito será atingido. Ora, meu fito é nobre. Depositarei em ti um minúsculo germe de fé que dará nascimento a um carvalho, um carvalho tão grande que será teu refúgio e quererás fazer-te anacoreta, porque é teu vivo desejo em segredo, nutrir-te-ás de gafanhotos, prepararás a tua salvação no deserto.
-Então, miserável, é para minha salvação que trabalhas?
-É bem preciso praticar aguma vez uma boa obra. Tut e zangas, pelo que vejo!
-Palaço! Jamais tentaste aqueles que se nutrem de gafanhotos, rezam dezessete anos no deserto até ficarem cobertos de musgo?
-Meu caro, não faço outra ocisa senão isso. A gente esquce o mundo inteiro por uma alma assim, porque é uma jóia de preço, uma aritmética. A vitória é preciosa! Ora, certos solitários, palavra de honra, valem tanto quanto tu, do ponto de vista intelectual, se bem que não o creias; podem contemplar simultaneamente tais abismos de fé e de dúvida que parece por vzes, na verdade, que basta apenas um cabelo para que eles sucumbam.
-Pois bem! Tu te retirarias de nariz bem comprido!
-Meu amigo - observou o visitante, sentencioso -, mais vale ter o nariz comprido do que não ter nariz nenhum, como dizia ainda recentemente um marquês doente (devia ter sido tratado por um especialista), confessando-se a um padre jesuíta. Asssisti a isso, era encantador. "Entregai-me meu nariz!", e batia no peito. "Meu filho", insinuava o padre, " tudo é regulado pelos decretos insondáveis da Providência, um mal aparente traz por vezes um bem oculto. Se uma sorte cruel o privou de seu nariz, o senor ganha com isso pelo fato de ninugém mais doravante ousar dizer-lhe que o senhor tem o nariz comprido." "meu padre, não é isto um consolo!", exclamou ele desesperado. "Ficarei, pelo contrário, encantado por ter cada dia o nariz mais comprido, contanto que ele esteja no seu lugar!" "Meu filho", disse o padre, suspirando, "não se podem pedir todos os bens ao mesmo tempo, e já é murmurar contra a Providência, que, mesmo assim, não o esqueceu; porque, se o senhor grita, como ainda há pouco, que seria feliz toda a sua vida por ter seu nariz comprido, seu desejo será satisfeito indiretamente, porque, tendo perdido seu nariz, pelo fato mesmo, tem o senhro o nariz comprido..."
-Ora! Que coisa estúpida! - exclamou Ivan.
-Meu amigo, eu queria fazer-te rir, juro-te que tal é a casuística dos jesuítas e que tudo isso é rigorosamente exato. Esse caso é recente e causoume bastantes preocupações. De volta para casa, o desgraçado rapaz estourou os miolos naquela noite; não o deixei até o derradeiro instante... Quanto aos confessionários jesuíticos, são na verdade meu divertimento agradável nas horas de tristeza. Eis uma historieta destes últimos dias. Uma jovem normanda, loura, de vinte anos, chega è casa de um velho padre. Uma beleza! Que corpo! Era de fazer vir água à boca. Ajoelha-se, murmura seu pecado através da grade. "Omo, minha filha, você recaiu no pecado?... Ó sancta maria, que ouço eu? Já é outro? Até quando durará isso? Não tem você vergonha?" "Ah! mon père", responde a pecadora arrependida, "ça lui a fait tant de plaisir et à moi si peu de peine!" Considera essa resposta! É o grito da própria natureza, vale isto mias que a inocência! Dei-lhe a absolvição e voltei-me para retirar-me, quando ouvi o padre marvar-lhe um encontro para aquela noite. Por mias resistente que tenha sido o velho, sucumbiu logo à tentação. A natureza, a verdade desforraram-se! Por que fazes careta? Eis-te de novo zangado? Não sei mais que faze para te ser agradável...
-Deixa-me, tu me obsedas como um pesadelo - gemeu Ivan, vencido pela sua visão. - Tu me aborreces e me atormentas. Daria muito para escorraçar-te.
-Repit, modera tuas exigências, não xijas de mim o grande e o belo e verás como seremos bons amigos - disse o cavalheiro com um tom sugestivo. - Na verdade, tens razão de querer-me mal porque não apareci em meio duma duma nuvem vermelha, entre o trovão e os raios, com as asas avermelhadas, mas me apresentei com traje tão modesto. Em primeiro lugar, teus sentimentos estéticos estão melindrados, depois teu orgulho: tão grande homem receber a visita de um diabo tão comum! Há em ti aquela fibra romântica de que zombou Bielínski! Que fazer, rapaz? Ainda há pouco, no momento de vir à tua casa, pensei, para brincar, em tomar a aparência de um conselheiro de Estado aposentado, condecorado com as ordens do Leão e do Sol, mas não ousei, porque ter-me-ias batido: como, pôr no peito as placas do Leão e do Sol, em lugar da Estrela Polar ou de Sírio?! E insistes em chamar-me estúpido. Meu Deus, não pretendo ter a tua inteligência. Mefistófeles, aparecendo a Fausto, afirma que quer o mal e não faz senão o bem. Bem, isso é lá com ele, comigo é o contrário. Sou talvez o único ser no mundo que ama a verdade e quer sinceramente o bem. Estava presente quando o Verbo crucificado subiu ao céu, levando a alma do bom ladrão; ouvi as exclamações jubilosas dos querubins cantando hosana! e os hinos dos serafins, que faziam tremer o universo. Pois bem, juro-o pelo que há de mais sagrado, quis juntar-me aos coros e gritar também hosana! As palavras iam sair de meu peito... sabes que so bastante sensível e impressionável do ponto de vista estético. Mas o bom senso - a mais desgraçada de minhas faculdades - reteve-me nos justos limites e deixei passar a hora propícia! porque, pensava e então, que aconteceria se eu cantasse hosana? Tudo se extinguiria no mundo, não se passaria mais nada. Eis como os deveres de meu cargo e minha posição social obrigaram-me a repelir um impulso generoso e a permanecer na infâmia. Outros arrogam-se toda a honra do bem: não me deixam senão a infâmia. Mas não invejo a honra de viver às custas de outrem, não sou ambicioso. Por que, entre todas as criaturas, sou eu só votado às maldições das pessoas honestas e mesmo aos pontapés debotas, pois, encarnando-me, evo suportar tais consequências? Há aí um mistério, mas a preço algum querem revelar-mo, com medo de que entoe eu hosana e tão lgoo edsapareçam as imperfeições necessárias, reine a razão no mundo inteiro: seria naturalmente o fim de tudo, até mesmo de jornais e revistas, porque quem os assinaria então? Sei que por fim eu me reconciliaria, farei também eu o meu quatrilhão e conhecerei o segredo. Mas, à espera, amuo-me e cumpro a contragosto minha missão: perder milhões para salvar um só. Quantas almas , por exemplo, foi preciso perder e quantas reputações macular para obter um só justo, Jó, do qual se serviram outrora para me pregarem bem má peça. Não, enquanto o segredo não for revelado, existem para mim duas verdades: a lá de baixo, a deles, que ignoro totalmene, e a outra, a mnha. Resta ver qual é a mais pura... Dormes?
-Penso bem - gemeu Ivan - em tudo o que há de animal em mim, tudo o que desde muito tepmo digeri e eliminei como uma sujeira, tu mo trazes como uma novidade!
-Então, não fui bem sucedido! Eu que pensava encantar-te com minha eloquência! Esse hosana no céu, na verdade, não estava mal, não é? Depois aquele tom sarcástico a Heine, não é?
-Não, jamais tive esse espírito de lacaio! Como pôde minha alma produzir um lacaio de tua espécie?
-Meu amigo, conheço um encantador jovem russo, amador de literatura e de arte. É o autor dum poema que promete, intitulado: O grande inquisitor... Era unicamente ele uqe eu tinha em vista.
-Proíbo-te de falar do Grande inquisitor - exclamou Ivan, rubro de vergonha.
-E o cataclismo geológico, lembras-te? Que poema!
-Cala-te o eu te mato!
-Matar-me? Não, é preciso que eu me explique em primeiro lugar. Vim cá para oferecer a mim mesmo esse prazer. Oh! quanto amo os sonhos de meus jovens amigos, fogosos, sedentos de vida! "Ali vive gente nova!", dizias tu na última primavera, quando te preparavas para vir aqui, "eles querem tudo destruir e regressar à antropofagia. Não me consultaram, os estúpidos. Na minha opinião, não é preciso destruir nada, a não ser a idéia de Deus no espírito do homem: eis por onde é preciso começar. Oh! os cegos, não compreendem nada! Uma vez que a humanidade inteira professe o ateísmo (e reio que essa época, à maneira das épocas geológicas, chegará a seu tempo), então, por si mesma, sem antropofagia, a antiga concepção do mundo desaparecerá, e sobretudo a antiga moral. Os homens se unirão para retirar da vida todos os gozos possíveis, mas neste mundo somente. O espírito humano se elevará até um orgulho titânico, e isto será a humanidade deificada. Triunfando sem cessar e sem limites da natureza pela ciência e pela energia, o homem por isso mesmo experimentará constantemente uma alegria tão intensa que ela substituirá para ele as esperanças das alegrias celestes. Cada qual saberá que é mortal, sem esperança de ressurreição, e resignar-se-á à morte com uma altivez tranquila, como um deus. Por altivez, abster-se-á de murmurar contra a brevidade da vida e amará seus irmãos duma maneira desinteressada. O amor só procurará gozos breves, mas o próprio sentimento de sua brevidade reforçar-lhe-á a intensidade tanto quanto outrora la se disseminava nas esperanças de um amor eterno, além-tumular"... e assim por diante. É encantador!
Ivan tapava os ouvidos com as mãos, olhava para o chão, termia da cabeça aos pés. A voz prosseguiu:
-A questão consiste nisto, sonhava meu jovem pensador: será possível que essa época chegue algum dia? Na afirmativa, tudo está decidido, a humanidade se organizará definitivamente. Mas como, diante da estupidez inveterada da espécie humana, não se venha isso a realizar talvez nem dentro de mil anos, é permitido a todo indivíduo que tenha consciência da verdade regularizar sua vida como bem entender, de acordo com os novos princípios. Neste sentido, tudo lhe é permitido. mais ainda: mesmo se essa época nunca chegar, como Deus e a imortalidade não existem, é permitido ao homem novo tornar-se um homem-deus, seja ele o único do mundo a viver assim. Poderia doravante, de coração leve, libertar-se das regras da moral tradicional, às quais estava o homem sujeito como um escravo. Para Deus, não existe lei. Em toda parte onde Deus se encontra, está em seu lugar! Em toda parte em que me encontrar, será o primeiro lugar... tudo é permitido, um ponto, é tudo! Tudo isso é muito gentil; somente, se se quer trapacear, de que serve a sanção da verdade? Mas nosso russo contemporâneo é sasim feito: não se decidirá a trapacear sem essa sanção, tanto ama ele a verdade...
O visitante deixara-se arrebatar pela sua eloquência, elevava cada vez mais a voz e olhava com ironia o dono da casa; mas não pôde acabar. Ivan agarrou de repente um copo em cima da mesa e atirou-o no orador.
-Ah! mais, c'est bête enfin - exclamou o outro, erguendo-se vivamente e enxugando as gotas de chá que lhe caíram na roupa; lembou-se do tinteiro de Lutero! - Quer ver em mim um sonho e lança copos contra um fantasma! Isso é digno dma mulher! Bem suspeitava de que fingias tapar os ouvidos e que estavas escutando...
Nesse momento, bateram na janla com insistência. Ivan Fiódorovitch levantou-se.
-Estás ouvindo? Abre então - exclamou o visitante. - É teu irmão Aliócha que vem anunciar-te uma notícia das mais inesperadas, garanto-te.
-Cala-te, impostor, sabia antes de ti que era Aliócha, pressentia-o, e decerto não vem à toa, traz evidentemente uma "notícia" - exclamou Ivan exaltado.
-Abre então, abre-lhe. Está lá fora uma tempestade de neve e é teu irmão quem bate. Monsieur sait-il le temps qu'il fait? C'est à ne pas mettre un chien debors...
Continuavam a bater. Ivan quis correr à janela, mas sentiu-se como que paralisado. Esforçava-se por partir os laços que o prendiam, mas em vão. Batiam cada vez com mais força. Por fim os laços se romperam e Ivan Fiódorovitch levantou-se. As duas velas acabavam de consumir-se, o copo que havia atirado contra seu visitante estava sobre a mesa. Sobre o divã, ninguém. As pancadas na janela persistiam, mas bem menos fortes do uqe lhe tinham parecido, bem discretas até.
-Não é um sonho! Não, juro que não era um sonho, tudo isso acaba de ocorrer.
Ivan correu à janela e abriu o postigo.
-Aliócha, eu te havia proibido de vir - gritou ele, com raiva a seu irmão. - Em duas palavras: que queres? Em duas palavras, ouves-me?
-Há uma hora Smierdiákov enforcou-se - disse Aliócha.
-Sobe o patamar, vou abrir a porta - disse Ivan.


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Capítulo IX, "O Diabo. A alucinação de Ivan Fioódorovitch", da obra "Irmãos Karamazov" de Dostoievski.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O demônio




Ainda que sejas o demônio
Quero de novo sonhar contigo
Troco por mil crianças em pranto
O tédio de um belo sorriso

Quero teus dentes podres. Tua carne crua e quente. Teus pêlos grosseiros e vulgares. Tua insaciável vontade do que é sujo e mal quisto. Um quarto luxuoso e velho, muito alto para lembrar-se de qualquer mundo. Tua humilhação e teu silêncio, teu afago e teu deboche. Tua espontaneidade em ser vil e barata. Vendo minha alma ao teu seio a troco de esmolas. Tudo isso por algumas horas, até que a vida seja somente um peso.

Que tua excreção seja minha comida
Para que, enfim, eu esqueça o pão

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

(...)



Nenhuma revelação pode ser tão dolorosa quanto uma descoberta do passado. Minha única coragem e tristeza.
Por tanto tempo pensei que a saudade que sinto de você fosse meramente falta de seu sexo. Um dia, uma noite, encontrei uma prostituta idêntica a você. Observando seus movimentos sensuais, me vi à procura de qualquer gesto sutil que escondesse uma lembrança sua, viva, sorrindo pela manhã.
Sou como o vinho: amo tanto quanto sou vulgar.

domingo, 14 de novembro de 2010

O coração

Há muito venho adiando uma história que não deixa de me atormetar sequer por uma noite. Porque ninguém acreditaria em minhas palavras, ou porque sei como um momento pode se tornar infeliz ao transformar-se em passado. Dentre estes momentos, entre diversos felizes ou tristes, não há qual possa ser mais assombroso do que algo que não possamos compreender e tenha se dado diante de nossos próprios olhos.
Aconteceu-me em uma época muito confusa. Estava desempregado, em grande necessidade de dinheiro. Costumava tomar meus cafés da manhã em uma padaria no mínimo peculiar, em uma esquina qualquer de Niterói. Raramente conversava, as pessoas estavam sempre estressadas. Em contraste, havia este velho. Nunca o havia visto ter uma péssima manhã, estava sempre de bom humor e conversava com todos de forma entusiasmada, qualquer fosse o assunto em questão. Ao lado de muito dinheiro, o velho carregava consigo um excelente, porém doente, coração. Nunca havíamos trocado uma palavra sequer, mas sempre me punha a ouvir suas reconfortantes palavras às pessoas ao seu redor, palavras incrivelmente nunca piegas, mas sim vivas. Havia mais vida em cada uma delas do que em qualquer pessoa que se sentasse ao seu redor, e às vezes me espantava a impressão de que suas palavras fizessem com que as pessoas respirassem, ainda que o ônibus lotado que tivessem de tomar logo em seguida rapidamente removessem este resquício de vida de seus interiores.
Certa vez este velho chegou à padaria mais tarde que de costume, com um sorriso sustentado à força em sua boca e um grande abatimento em seus olhos. Sentou-se ao meu lado, pediu seu "pingado" e seu "pão na chapa", como de costume, e ficou em silêncio. Incrivelmente, nos olhávamos e era como se um diálogo já tivesse se iniciado entre nós há minutos, apesar do longo silêncio.
-Meu coração vai parar de bater dentro de alguns dias e eu não estou preparado para morrer - disse ele.
Aquilo me comoveu, mas não com sua situação, e sim com o quão injusto é o fato de não haver um sentido no mundo. Seria muito mais prudente que a morte levasse um infeliz como eu a privar aquele velho de seu enorme amor pela vida. Permaneci em silêncio, sem saber o que dizer.
-Você sabe, eu tenho muito dinheiro. Talvez, se você pudesse pulsar meu coração até que eu me sinta mais preparado. Posso pagá-lo o quanto for necessário.
Fui pego de surpresa, como você deve estar pensando. Como poderia pulsar seu coração? Seria justo que o fizesse? Posso mesmo permitir que um sujeito, em lugar da natureza, decida o momento de sua morte? Enquanto o velho explicava-me sobre um aparelho que me permitira pulsar manualmente seu coração, me vinha à cabeça, além de diversas perguntas como as anteriormente ditas, minha enorme necessidade de dinheiro, além de grande admiração por aquele velho.
O fato é que aceitei. E o que me soava, a primeira vista, monótono e moralmente grotesco, acabou por se mostrar bem diferente. Primeiro, mudei-me para a casa do velho. Passava as noites em claro de forma a mantê-lo vivo, minhas mãos estavam sempre formigando e dormentes, mas sentia nelas um propósito. Assustava-me a velocidade que me era exigida em suas pulsações. Meu coração estava sempre lento, mas aquele velho estava sempre entusiasmado, obrigava-me sempre a manter seu coração o mais rápido que minhas mãos pudessem aguentar, mas sempre o pedia de forma polida e bem humorada.
Foi um momento feliz de minha vida por muito tempo. Era como se nossos sentimentos começassem a se misturar; como se, de alguma forma, o velho mantivesse também minha pulsação. Este foi, na verdade, o problema. A medida que os sentimentos do velho me invadiam, meus sentimentos também pareciam afetá-lo. Aos poucos o velho foi ficando mais cabisbaixo, sempre pedindo que eu acelerasse sua pulsação e, ainda que fizesse meu máximo, continuava infeliz, desanimado para com a vida. Como se percebesse que, por mais que eu acelerasse seus batimentos, seu coração continuava morto, dependente. Nossa vida (já nos referíamos a ela desta forma, como se fosse apenas uma) havia se tornado miseravelmente infeliz. Ele sentia a infelicidade como uma doença transmissível e crescente, enquanto eu me sentia seu eterno carrasco. Talvez eu devesse tê-lo deixado morrer enquanto ele ainda possuía uma boa impressão da vida. Não porque a natureza seja sábia, mas talvez porque o velho tivesse feito uma escolha muito errada.
Enquanto pensava isto, assistia ao velho dormir confortavelmente ao meu lado. Deixar-se falecer por causas naturais é talvez tão imbecil quanto matar-se por ser infeliz. Ainda que nenhuma das duas sejam necessariamente imbecis, mas iguais. O homem deveria escolher o dia de sua morte. Um dia que se divertisse de forma tão simples e reconfortante, que a vida fosse seu travesseiro em sua infância. Depois deste momento, simplesmente colocar uma arma em sua cabeça e atirar, enquanto sorri.
Foi neste momento que passei a diminuir gradativamente a pulsação do velho. Ele não se agitava, ao contrário, parecia confortável como nunca. Talvez estivesse tendo um daqueles sonhos muito infantis que parecem nunca abandonar a cabeça dos adultos. O velho estava com um semblante bonito, como costumava ser quando seu coração não havia o abandonado, enquanto bebia seu "pingado" e comia seu "pão na chapa". Impulsivamente parei sua pulsação. Assisti ao velho, aos poucos, tranquilamente, morrer, sem perder aquele sorriso de seu semblante. Então o beijei e dormi como há nunca não dormia.
Desde este momento, meu falecido coração procura, em palavras, a vida que aquele velho possuía dentro de si.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Letícia



É difícil compreender racionalmente o que outra pessoa sente ou vê. Mas se um dia você quiser entender o mínimo do que uma pessoa sente no instante em que ela está com você, tente respirar no mesmo ritmo que ela e aprecie o que você sente a partir disto. Nada mais.
Todas as pessoas ao meu redor, salve raras exceções, estão tentando se tornar algo e gritar ao mundo o que elas se tornaram, o que elas sempre foram. Quando eu penso em apedrejar minha existência medíocre em meio a isto, fechar os olhos e me trancar em algum lugar, várias imagens me vêm à cabeça.
O olhar de minha mãe, transbordando um amor tão puro que eu, pessoa tão corrompida e inferior, jamais serei capaz de compreender. O amor que estamos acostumados está tão infinitamente ligado à pura necessidade pessoal, mesmo aquele em que deixaríamos de viver por outra pessoa, que não é nada além da necessidade tão intensa que sentimos da outra. Como uma pessoa pode tão puramente abrir mão de si mesma por outras pessoas desta forma? Simplesmente amar outras pessoas acima de si mesma, mas de uma forma real. Amar tanto, que possa ser capaz de simplesmente deixar a outra pessoa ir embora, se este for o melhor pra ela.
O olhar severo de meu pai. Como algumas pessoas simplesmente são, sem tentar ser, de forma que sequer percebem o quanto poderiam enriquecer o mundo se externassem o que pensam. Não consigo concentrar quando vejo um filme com meu pai, porque simplesmente sei que nunca vou conseguir compreender o que está à minha frente de forma tão rica quanto ele. Ou olhar pro mundo. Por mais que eu me considere alguém que compreende bem as pessoas, quando penso em meu pai, me sinto mera criança, na ponta dos pés, tentando enxergar algo novo por uma janela.
Quando penso em praguejar contra nossa existência medíocre, me vem uma memória à cabeça: meu amigo, Túlio. Éramos muito pequenos, estávamos na primeira série, quando ele quebrou a perna de forma grave. Ele teve de usar um aparelho que mantinha suas duas pernas abertas por todo o tempo em que estivemos em contato. Ninguém o aceitava, ele era a piada do colégio. Tinha apenas dois amigos: Eu e Guilherme Henrique. Não estou aqui sendo hipócrita, mesmo porque eu talvez tenha sido o maior de todos. Era-me difícil também aceitá-lo, mas algo me dizia que eu devia estar do lado dele o tempo inteiro. Um dia, na Educação Física, estávamos treinando cobranças de pênaltis, o professor estava no gol e ninguém conseguia acertar a cobrança. Quando chegou a vez de Túlio tentar, todo mundo ria: se nem os melhores, com suas pernas perfeitas, suas vidas perfeitas, seus sorrisos perfeitos, conseguiam fazer o gol, como ele conseguiria? É algo que aconteceu, e ainda ninguém consegue explicar. Como é feliz presenciar uma sensação como essa: uma sensação inexplicável. Acho que nunca verei alguém tão feliz como o vi naquele dia. Consigo me recordar vividamente de nós três – eu, Túlio e Guilherme Henrique – pulando, abraçados, de forma completamente desengonçada (Túlio não podia pular direito com o aparelho em suas pernas), comemorando aquele gol. Todos sabem como amo meu time, Palmeiras, mas acho que nunca comemorei um gol como aquele dia.
Lembro-me de um ensaio para uma apresentação em um Festival de Inglês no colégio, já no terceiro ano. Eu namorava, já há um ano a essa altura, e nunca havia dado qualquer valor para o namoro até esse dia, quando meu namoro já estava em crise e eu já tinha errado tanto que a garota já não tinha qualquer dúvida de que seria melhor pra ela terminar comigo. Neste dia eu me sentei em um canto, tirei pela primeira vez minha aliança e fiquei ali, a girando em meus dedos e pensando. Só ali, tarde demais, percebi que amava aquilo que havia desprezado tanto. E desde este dia não há um momento sequer da minha vida que eu não tenha certeza do quanto amo o que mais desprezo em meu interior: a existência. Esta vida medíocre, sempre triste, com raros momentos simples e insuperáveis. É incrível como nunca sabemos que um momento é especial quando este está acontecendo, assim como sempre julgamos especial, no exato instante em que este se dá em nossas vidas, um momento que não significa nada. A existência pode ser tão sensacional, que ainda que sejamos muito medíocres, ela consegue nos superar e se manifestar em nossas vidas em momentos raros e cientificamente inexplicáveis. Por mais que possamos compreender todas as reações químicas que ocorrem em nosso interior e são responsáveis por tudo isso, não compreendemos perfeitamente por que elas ocorrem em determinados momentos, não compreendemos o momento, não compreendemos o fenômeno.
Minha tia Letícia. Não posso dizer que ela compreendia tudo isto perfeitamente, mas posso dizer que nunca conheci alguém que compreendesse tudo isto tão bem quanto ela. Ela era simplesmente genial, autodidata em todos seus conhecimentos, viveu sua vida inteira em Miraí, uma pequena cidade mineira, próxima ao estado do Rio de Janeiro. Cidade que teve enorme força cultural, embora esta venha se perdendo com o tempo. Seria hipócrita dizer que choro todos os dias por não a ter conhecido melhor, mas não há uma expressão artística minha que não esteja revestida de lágrimas de frustração por não tê-lo feito. Tive logo na ponta de meu nariz uma pessoa da grandeza de todos os escritores que leio e admiro nos dias de hoje e nunca me aproximei dela. Por muito tempo tentei compreender como uma pessoa como ela conseguiu por tanto tempo ficar em silêncio naquela cidade, uma pessoa que tinha tanta coisa a dizer. Hoje percebo que ela disse. Depois de muito tempo, aprendi uma lição extremamente valiosa com esta tão querida tia: Talvez seja realmente impossível mudar o mundo, mas talvez a vida sequer nisto consista. Há tanta coisa simples e bonita ao nosso redor, tantas pessoas que podemos amar de tal forma e de tal forma por elas sermos amados, que o mundo ao nosso redor talvez se transforme em outro mundo, um mundo sensacional, um mundo que todas as pessoas merecem conhecer e nele viver. Nunca realmente a conheci, mas a cada dia aprendo com minhas memórias sobre ela, minhas suposições sobre ela, o que realmente é a vida.
O que me dói é que, neste momento, deixo o texto de lado e passo a observar o a natureza viva que movimenta a cortina, minha caneca de água, o teclado sujo de meu notebook. Minhas crenças religiosas me impossibilitam de acreditar que um dia, quando eu morrer, poderei me sentar com você em um lugar lindo e conversar sobre tudo o que sempre quis conversar com você depois de sua morte. E me recordo de minha irmã recebendo aquele telefonema e que, antes de ela dizer qualquer coisa, eu já tinha a certeza de que você havia falecido. Tudo o que me resta é minha imaginação, e eu sou capaz de construir um momento com grande parte das pessoas que passaram por minha vida sem grandes dificuldades. Mas a verdade é que você era realmente uma escritora talentosa enquanto eu, apenas um pseudoescritor medíocre, fraco e arrogante. Nunca serei capaz de reproduzir você em meus pensamentos, e por mais que a natureza esteja agora viva em minha sala, eu me sinto completamente sozinho.


“Nessas alturas já entardecia e a mata já se tornava escura. Minha mãe, coitada, era só cansaço. Foi aí que resolvemos voltar. Quem sabe se outro dia retornamos e mais bem informados encontramos o lugar, consolávamos. Ela, conformada, resolveu aderir e novamente nos pusemos a caminho, de volta à casa.
E o diabinho lá, me azucrinando de novo:
- Podem voltar, hahaha! Podem voltar se quiserem, mas àquele tempo nunca mais!
Raios! Pensei em minha mãe e olhei-a de soslaio. Até que ela estava animada e corada de satisfação. Comentava a beleza do passeio e a oportunidade de rever as pessoas e lugares conhecidos. Ela não se decepcionara nem um pouco. Aquele era um novo momento vivido. Para ela a fonte da juventude tinha sido aquele chafariz antigo que a fizera menina de novo.
Também os amigos que reencontrara e com quem comungara belos momentos distantes. O resto fazia parte de outros momentos já vividos e que restavam bem arquivados em sua memória.
Mas para mim, que agora viajava pensativa, a imaginação ainda teimava em regredir no tempo em busca de tudo que minha mãe contava de sua infância e que eu não conhecia. Lá estavam bem direitinhos, perfilados e em posição de sentido, em vidrinhos rotulados pelos nomes, todos os crioulinhos e de mais personagens, nas prateleiras de minha memória.
Aguardando revista eu via o "Jeremias", "Natanael", "tia Toca", "Sinhá Peituda", "Zé Luiz", "Mariinha", "Manoel Abranches" e outros mais. Até o português Marsal, que roubou a tia Rosa para se casarem. Todos eles, todos esperando o renascer da Terra Prometida que se perdera no emaranhado dos anos.
Sim, ela se perdera de fato! Não porque não a encontramos, mas porque o tempo não se repete. Se teimávamos em encontrar-nos lá no horizonte longínquo com aquelas figuras inatingíveis, debalde, pois agora elas só existiam mesmo em nossa imaginação fértil.
Aos poucos quedei-me vencida e cansada, me dando conta de que todos os momentos de nossas vidas são impares e únicos. Não se repetem nunca...
E ai de nossa ilusão perdida que se desfaz em busca de um hipotético horizonte onde ela se evapora após uma caminhada inglória. O horizonte está lá onde o céu encontra a terra e parece ao alcance de nossas mãos. Podemos até tentar uma nova caminhada em sua busca, mas cada momento será bem diferente.
E, se buscássemos esse horizonte como ponto final de nossa jornada, verificamos que ele é feito de outros horizontes e que nossa busca se torna eterna.
Ao atingi-lo, o céu nos foge às mãos e lá se vão nossos castelos, nossos reis, nossos leões, virgens e querubins, produtos de nossa imaginação fantasiosa. E aí nos damos conta de que nossos pés continuam ali em terra firme enquanto se erguem em vão ao infinito nossos braços.
E nós nos perguntamos mais uma vez: Existirá esta Terra Prometida? Onde estará esta Avalon longínqua?”


Trecho de “Terra Prometida” – Letícia Maria Recipute (25/01/2003)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O grito

O grito virou hipnose
O grito virou hipnose
O grito virou hipnose
O grito virou hipnose

Todo feixe de luz que invade
É um nascimento
E nem todo bebê que geme
O faz por sofrimento
A fome já não é mais vaidade
E a cegueira que consome
Já não escolhe idade
Nem toda bandeira ostenta um ideal
E a raiva de quem perdeu sua liberdade
Já não mais está abaixo de bem ou mal

O grito virou hipnose
O grito virou hipnose
O grito virou hipnose
O grito virou hipnose

Toda geração é um formigueiro de idéias prontas
A juventude é um relógio parado
Louvamos o fracasso antigo
Escrevemos em um papel usado
A luxúria de mudar o mundo
Mata de frio o velho morimbundo
E a água da chuva se confunde com lágrimas

O grito virou hipnose
O grito virou hipnose
O grito virou hipnose
O grito virou hipnose

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Lúpus



Todas as pessoas detestam a sociedade, mas todas querem seus pais perfeitamente sociais.
Os pais são nossa eterna recordação ou expectativa de conforto e segurança, ainda que sejam símbolos da ausência destes em nossa vida.
As pessoas sentem a necessidade, independente de sua inerência (ou não) natural, de convivência, dispondo de todos os sacrifícios necessários para que se mantenham em contato social.
O que está em questão não é o desgosto verbal do ser humano pela sociedade, mas um desgosto verdadeiro e raramente percebido. O desgosto verbal pela sociedade pode se tornar algo completamente social, o que é de fato, infelizmente, eficaz, exatamente em função do desgosto real em questão. Este desgosto verbal faz com que o outro ser social tenha sensação de finalmente encontrar alguém que compreende algo que está em seu interior - este desgosto verdadeiro, que é quase inexpressável, embora passível de compreensão por qualquer um.
A sociedade em sua forma atual e em suas formas historicamente conhecidas é um simples vírus, um vício. Obedecemos normas completamente exteriores, que detestamos, em prol do convívio social. Estas normas, postas desta forma, obviamente deveriam ter função de facilitar e tornar agradável o convívio social, mas elas acabam por tomar forma de preços, os quais pagamos. Preços que destroem o que procuramos.
É como um remédio alucinógeno. Inicialmente, por mais que os preços sejam altos, o benefício é válido, e pagamos por ele. Depois, o benefício se torna tão irrisório, que não pagaríamos por ele ainda que os preços abaixassem ou se tornasse gratuito. São normas que destroem não só o convívio social, como a ânsia humana pelo contato com outros homens. Isto porque a relação entre estas normas e o convívio está completamente alterada: o primeiro não facilita o segundo, o primeiro é condição necessária para o segundo, situação que acaba por tornar o convívio um incoveniente, algo que necessitamos e precisamos de alguma forma conseguir pagar por. E este pagamento está na construção de quem somos. É uma doença tão intensa, que a maioria das pessoas tentará moldar sua postura de acordo com esta sociedade ou de forma completamente contrária a esta sociedade e que seja interessante, para que possa participar da mesma de uma forma relevante sem necessariamente destruí-la, ainda que seja reconhecido como um vilão social.
Quando tomo um comprimido qualquer, sinto exatamente o gosto desta doença, sinto as partes de mim que se ocupam dela e das quais não consigo me livrar, expelir. São como fungos por todo o meu corpo, mais velhos até mesmo do que minha memória. Depois me vem à cabeça o preço, o formato desta necessidade, o sumiço de qualquer perspectiva. Por fim, é como se não houvesse mais alimento para aqueles fungos, mas eles continuassem ali, famintos, e tudo o que eu pudesse fazer é esperar alguém retirá-los de meu corpo pra mim. Ou alguém resolver retirar seus próprios fungos enquanto eu retirasse os meus, juntos.
Esta sensação é a que identifico como a única sensação social pura - despida de qualquer construção externa - que conseguimos alcançar sozinhos e livres. Ela é a responsável por minha imaginação - que ocupa tanto espaço em meu tempo -, é a única razão pela qual me mantenho vivo.
Se esta base, uma idéia tão simples, consegue transmitir uma sensação tão diferente e interessante, imagine o que poderia acontecer se duas pessoas livres pudessem se encontrar? É algo que eu talvez nunca conheça em toda minha vida, mas que sempre esperarei conhecer.
A vida como temos agora, porém, é como um cigarro aceso pelo filtro.

domingo, 3 de outubro de 2010

h) Pode-se ser o juiz de seus semelhantes? Fé até o fim.

"Lembra-te de que não podes ser o juiz de ninguém. Porque antes de julgar um criminoso, deve o juiz saber que é ele próprio tão criminoso quanto o acusado, e talvez mais que todos culpado do crime dele. Quando tiver compreendido isto, poderá ser juiz. Por mais absurdo que isto pareça, é verdade. Porque se eu mesmo fosse um justo, talvez não houvesse diante de mim um criminoso. Se podes encarregar-te do crime do acusado que julgas em teu coração fá-lo imediatamente e sofre em seu lugar; quanto a ele, deixa-o ir sem censuras. E mesmo se a lei te instituiu juiz dele, tanto quanto é possível, faze também a justiça naquele espírito, porque, uma vez partido, condenar-se-á ele ainda mais severamente que o teu tribunal. Se ele se vai insensível a teu bom tratamento e zombando de ti, não fiques impressoinado; é que a hora dele ainda não chegou, mas chegará; e, no caso contrário, um outro em lugar dele compreenderá, sofrerá, condenar-se-á, acusar-se-á a si mesmo, e a verdade será cumprida. Crê firmemente nisto; é aí que repousam a esperança e a fé dos santos. Não te canses de agir. Se te lembrares, à noite, antes de dormir, de que não cumpriste o que era preciso, levanta-te logo para cumpri-lo. Se os que te cercam, por malícia ou indiferença, recusam ouvir-te, põe-te de joelhos e pede-lhes perdão, porque, na verdade, é culpa tua se não querem escutar-te. Se não podes falar àqueles que estão envinagrados, serve-os em silêncio e na humildade, sem jamais desesperar. Se todos te abandonam e se te expulsam com violência, ao ficares sozinho, prosterna-te, beija a terra, rega-a com tuas lágrimas, e essas lágrimas darão frutos ainda mesmo que ninguém te veja, nem te ouça na tua solidão. Crê até o fim, mesmo que todos os homens se hajam desviado e tenhas ficado fiel sozinho; leva então tua oferenda e louva a Deus, por teres sido o único a manter a fé. E se dois, tais como vós, se reúnem, então eis a plenitude do amor vivo, beijai-vos com efusão e louvai o Senhor, porque sua verdade cunmpriu-se, ainda que apenas em vós dois.
Se tu mesmo pecaste e estás mortalmente aflito por isso, rejubila-te por um outro, por um justo, rejubila-te por ser ele, em compensação, um justo e não ter pecado.
Se estás indignado e aflito por causa da iniquidade dos homens, a ponto de quereres vingar-te, teme acima de tudo esse sentimento; impõe-te o mesmo castigo que fosses tu mesmo culpado do crime deles. Aceita esse castigo e suporta-o, teu coração se acalmará, compreenderás que tu também és culpado, porque terias podido esclarecer os celerados mesmo na qualidade de único justo, e não o fizeste. Esclarecendo-os, ter-lhes-ias mostrado um outro caminho, e o autor do crime não o teria talvez cometido, graças à luz. Se os homens ficarem mesmo insensíveis a essa luz, malgrado teus esforços, e negligenciarem sua salvação, fica firme e não duvides do poder da luz celeste; persuade-te de que, se não foram eles salvos agora, sê-lo-ão mais tarde. Senão, seus filhos serão salvos em lugar deles, porque tua luz não perecerá, mesmo se estiveres morto. O justo desaparece, mas a luz fica. Após a morte do salvador é que a gente se salva. O gênero humano repele seus profetas, massacra-os, mas os homens amam seus mártires e veneram aqueles que eles mesmos fizeram perecer. É pela coletividade que trabalhas, pelo futuro que ages. Não procures recompensa jamais, porque tens já uma grande nesta terra: tua alegria espiritual, de que somente o justo partilha. Não temas nem os grandes nem os poderosos, mas sê sábio e sempre digno. Segue a medida, conhece os termos, instrui-te a este respeito. Retirado na solidão, reza. Prosterna-te com amor e beija a terra. Ama incansavelmente, insaciavelmente, todos e tudo, procura esse êxtase e essa exaltação. Rega a terra de lágrimas de alegria, ama essas lágrimas. Não te envergonhes desse êxtase, ama-o, porque é um grande dom de Deus, concedido somente aos eleitos".


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Trecho da obra "Irmãos Karamazov", Dostoiévski.