segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Letícia



É difícil compreender racionalmente o que outra pessoa sente ou vê. Mas se um dia você quiser entender o mínimo do que uma pessoa sente no instante em que ela está com você, tente respirar no mesmo ritmo que ela e aprecie o que você sente a partir disto. Nada mais.
Todas as pessoas ao meu redor, salve raras exceções, estão tentando se tornar algo e gritar ao mundo o que elas se tornaram, o que elas sempre foram. Quando eu penso em apedrejar minha existência medíocre em meio a isto, fechar os olhos e me trancar em algum lugar, várias imagens me vêm à cabeça.
O olhar de minha mãe, transbordando um amor tão puro que eu, pessoa tão corrompida e inferior, jamais serei capaz de compreender. O amor que estamos acostumados está tão infinitamente ligado à pura necessidade pessoal, mesmo aquele em que deixaríamos de viver por outra pessoa, que não é nada além da necessidade tão intensa que sentimos da outra. Como uma pessoa pode tão puramente abrir mão de si mesma por outras pessoas desta forma? Simplesmente amar outras pessoas acima de si mesma, mas de uma forma real. Amar tanto, que possa ser capaz de simplesmente deixar a outra pessoa ir embora, se este for o melhor pra ela.
O olhar severo de meu pai. Como algumas pessoas simplesmente são, sem tentar ser, de forma que sequer percebem o quanto poderiam enriquecer o mundo se externassem o que pensam. Não consigo concentrar quando vejo um filme com meu pai, porque simplesmente sei que nunca vou conseguir compreender o que está à minha frente de forma tão rica quanto ele. Ou olhar pro mundo. Por mais que eu me considere alguém que compreende bem as pessoas, quando penso em meu pai, me sinto mera criança, na ponta dos pés, tentando enxergar algo novo por uma janela.
Quando penso em praguejar contra nossa existência medíocre, me vem uma memória à cabeça: meu amigo, Túlio. Éramos muito pequenos, estávamos na primeira série, quando ele quebrou a perna de forma grave. Ele teve de usar um aparelho que mantinha suas duas pernas abertas por todo o tempo em que estivemos em contato. Ninguém o aceitava, ele era a piada do colégio. Tinha apenas dois amigos: Eu e Guilherme Henrique. Não estou aqui sendo hipócrita, mesmo porque eu talvez tenha sido o maior de todos. Era-me difícil também aceitá-lo, mas algo me dizia que eu devia estar do lado dele o tempo inteiro. Um dia, na Educação Física, estávamos treinando cobranças de pênaltis, o professor estava no gol e ninguém conseguia acertar a cobrança. Quando chegou a vez de Túlio tentar, todo mundo ria: se nem os melhores, com suas pernas perfeitas, suas vidas perfeitas, seus sorrisos perfeitos, conseguiam fazer o gol, como ele conseguiria? É algo que aconteceu, e ainda ninguém consegue explicar. Como é feliz presenciar uma sensação como essa: uma sensação inexplicável. Acho que nunca verei alguém tão feliz como o vi naquele dia. Consigo me recordar vividamente de nós três – eu, Túlio e Guilherme Henrique – pulando, abraçados, de forma completamente desengonçada (Túlio não podia pular direito com o aparelho em suas pernas), comemorando aquele gol. Todos sabem como amo meu time, Palmeiras, mas acho que nunca comemorei um gol como aquele dia.
Lembro-me de um ensaio para uma apresentação em um Festival de Inglês no colégio, já no terceiro ano. Eu namorava, já há um ano a essa altura, e nunca havia dado qualquer valor para o namoro até esse dia, quando meu namoro já estava em crise e eu já tinha errado tanto que a garota já não tinha qualquer dúvida de que seria melhor pra ela terminar comigo. Neste dia eu me sentei em um canto, tirei pela primeira vez minha aliança e fiquei ali, a girando em meus dedos e pensando. Só ali, tarde demais, percebi que amava aquilo que havia desprezado tanto. E desde este dia não há um momento sequer da minha vida que eu não tenha certeza do quanto amo o que mais desprezo em meu interior: a existência. Esta vida medíocre, sempre triste, com raros momentos simples e insuperáveis. É incrível como nunca sabemos que um momento é especial quando este está acontecendo, assim como sempre julgamos especial, no exato instante em que este se dá em nossas vidas, um momento que não significa nada. A existência pode ser tão sensacional, que ainda que sejamos muito medíocres, ela consegue nos superar e se manifestar em nossas vidas em momentos raros e cientificamente inexplicáveis. Por mais que possamos compreender todas as reações químicas que ocorrem em nosso interior e são responsáveis por tudo isso, não compreendemos perfeitamente por que elas ocorrem em determinados momentos, não compreendemos o momento, não compreendemos o fenômeno.
Minha tia Letícia. Não posso dizer que ela compreendia tudo isto perfeitamente, mas posso dizer que nunca conheci alguém que compreendesse tudo isto tão bem quanto ela. Ela era simplesmente genial, autodidata em todos seus conhecimentos, viveu sua vida inteira em Miraí, uma pequena cidade mineira, próxima ao estado do Rio de Janeiro. Cidade que teve enorme força cultural, embora esta venha se perdendo com o tempo. Seria hipócrita dizer que choro todos os dias por não a ter conhecido melhor, mas não há uma expressão artística minha que não esteja revestida de lágrimas de frustração por não tê-lo feito. Tive logo na ponta de meu nariz uma pessoa da grandeza de todos os escritores que leio e admiro nos dias de hoje e nunca me aproximei dela. Por muito tempo tentei compreender como uma pessoa como ela conseguiu por tanto tempo ficar em silêncio naquela cidade, uma pessoa que tinha tanta coisa a dizer. Hoje percebo que ela disse. Depois de muito tempo, aprendi uma lição extremamente valiosa com esta tão querida tia: Talvez seja realmente impossível mudar o mundo, mas talvez a vida sequer nisto consista. Há tanta coisa simples e bonita ao nosso redor, tantas pessoas que podemos amar de tal forma e de tal forma por elas sermos amados, que o mundo ao nosso redor talvez se transforme em outro mundo, um mundo sensacional, um mundo que todas as pessoas merecem conhecer e nele viver. Nunca realmente a conheci, mas a cada dia aprendo com minhas memórias sobre ela, minhas suposições sobre ela, o que realmente é a vida.
O que me dói é que, neste momento, deixo o texto de lado e passo a observar o a natureza viva que movimenta a cortina, minha caneca de água, o teclado sujo de meu notebook. Minhas crenças religiosas me impossibilitam de acreditar que um dia, quando eu morrer, poderei me sentar com você em um lugar lindo e conversar sobre tudo o que sempre quis conversar com você depois de sua morte. E me recordo de minha irmã recebendo aquele telefonema e que, antes de ela dizer qualquer coisa, eu já tinha a certeza de que você havia falecido. Tudo o que me resta é minha imaginação, e eu sou capaz de construir um momento com grande parte das pessoas que passaram por minha vida sem grandes dificuldades. Mas a verdade é que você era realmente uma escritora talentosa enquanto eu, apenas um pseudoescritor medíocre, fraco e arrogante. Nunca serei capaz de reproduzir você em meus pensamentos, e por mais que a natureza esteja agora viva em minha sala, eu me sinto completamente sozinho.


“Nessas alturas já entardecia e a mata já se tornava escura. Minha mãe, coitada, era só cansaço. Foi aí que resolvemos voltar. Quem sabe se outro dia retornamos e mais bem informados encontramos o lugar, consolávamos. Ela, conformada, resolveu aderir e novamente nos pusemos a caminho, de volta à casa.
E o diabinho lá, me azucrinando de novo:
- Podem voltar, hahaha! Podem voltar se quiserem, mas àquele tempo nunca mais!
Raios! Pensei em minha mãe e olhei-a de soslaio. Até que ela estava animada e corada de satisfação. Comentava a beleza do passeio e a oportunidade de rever as pessoas e lugares conhecidos. Ela não se decepcionara nem um pouco. Aquele era um novo momento vivido. Para ela a fonte da juventude tinha sido aquele chafariz antigo que a fizera menina de novo.
Também os amigos que reencontrara e com quem comungara belos momentos distantes. O resto fazia parte de outros momentos já vividos e que restavam bem arquivados em sua memória.
Mas para mim, que agora viajava pensativa, a imaginação ainda teimava em regredir no tempo em busca de tudo que minha mãe contava de sua infância e que eu não conhecia. Lá estavam bem direitinhos, perfilados e em posição de sentido, em vidrinhos rotulados pelos nomes, todos os crioulinhos e de mais personagens, nas prateleiras de minha memória.
Aguardando revista eu via o "Jeremias", "Natanael", "tia Toca", "Sinhá Peituda", "Zé Luiz", "Mariinha", "Manoel Abranches" e outros mais. Até o português Marsal, que roubou a tia Rosa para se casarem. Todos eles, todos esperando o renascer da Terra Prometida que se perdera no emaranhado dos anos.
Sim, ela se perdera de fato! Não porque não a encontramos, mas porque o tempo não se repete. Se teimávamos em encontrar-nos lá no horizonte longínquo com aquelas figuras inatingíveis, debalde, pois agora elas só existiam mesmo em nossa imaginação fértil.
Aos poucos quedei-me vencida e cansada, me dando conta de que todos os momentos de nossas vidas são impares e únicos. Não se repetem nunca...
E ai de nossa ilusão perdida que se desfaz em busca de um hipotético horizonte onde ela se evapora após uma caminhada inglória. O horizonte está lá onde o céu encontra a terra e parece ao alcance de nossas mãos. Podemos até tentar uma nova caminhada em sua busca, mas cada momento será bem diferente.
E, se buscássemos esse horizonte como ponto final de nossa jornada, verificamos que ele é feito de outros horizontes e que nossa busca se torna eterna.
Ao atingi-lo, o céu nos foge às mãos e lá se vão nossos castelos, nossos reis, nossos leões, virgens e querubins, produtos de nossa imaginação fantasiosa. E aí nos damos conta de que nossos pés continuam ali em terra firme enquanto se erguem em vão ao infinito nossos braços.
E nós nos perguntamos mais uma vez: Existirá esta Terra Prometida? Onde estará esta Avalon longínqua?”


Trecho de “Terra Prometida” – Letícia Maria Recipute (25/01/2003)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O grito

O grito virou hipnose
O grito virou hipnose
O grito virou hipnose
O grito virou hipnose

Todo feixe de luz que invade
É um nascimento
E nem todo bebê que geme
O faz por sofrimento
A fome já não é mais vaidade
E a cegueira que consome
Já não escolhe idade
Nem toda bandeira ostenta um ideal
E a raiva de quem perdeu sua liberdade
Já não mais está abaixo de bem ou mal

O grito virou hipnose
O grito virou hipnose
O grito virou hipnose
O grito virou hipnose

Toda geração é um formigueiro de idéias prontas
A juventude é um relógio parado
Louvamos o fracasso antigo
Escrevemos em um papel usado
A luxúria de mudar o mundo
Mata de frio o velho morimbundo
E a água da chuva se confunde com lágrimas

O grito virou hipnose
O grito virou hipnose
O grito virou hipnose
O grito virou hipnose

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Lúpus



Todas as pessoas detestam a sociedade, mas todas querem seus pais perfeitamente sociais.
Os pais são nossa eterna recordação ou expectativa de conforto e segurança, ainda que sejam símbolos da ausência destes em nossa vida.
As pessoas sentem a necessidade, independente de sua inerência (ou não) natural, de convivência, dispondo de todos os sacrifícios necessários para que se mantenham em contato social.
O que está em questão não é o desgosto verbal do ser humano pela sociedade, mas um desgosto verdadeiro e raramente percebido. O desgosto verbal pela sociedade pode se tornar algo completamente social, o que é de fato, infelizmente, eficaz, exatamente em função do desgosto real em questão. Este desgosto verbal faz com que o outro ser social tenha sensação de finalmente encontrar alguém que compreende algo que está em seu interior - este desgosto verdadeiro, que é quase inexpressável, embora passível de compreensão por qualquer um.
A sociedade em sua forma atual e em suas formas historicamente conhecidas é um simples vírus, um vício. Obedecemos normas completamente exteriores, que detestamos, em prol do convívio social. Estas normas, postas desta forma, obviamente deveriam ter função de facilitar e tornar agradável o convívio social, mas elas acabam por tomar forma de preços, os quais pagamos. Preços que destroem o que procuramos.
É como um remédio alucinógeno. Inicialmente, por mais que os preços sejam altos, o benefício é válido, e pagamos por ele. Depois, o benefício se torna tão irrisório, que não pagaríamos por ele ainda que os preços abaixassem ou se tornasse gratuito. São normas que destroem não só o convívio social, como a ânsia humana pelo contato com outros homens. Isto porque a relação entre estas normas e o convívio está completamente alterada: o primeiro não facilita o segundo, o primeiro é condição necessária para o segundo, situação que acaba por tornar o convívio um incoveniente, algo que necessitamos e precisamos de alguma forma conseguir pagar por. E este pagamento está na construção de quem somos. É uma doença tão intensa, que a maioria das pessoas tentará moldar sua postura de acordo com esta sociedade ou de forma completamente contrária a esta sociedade e que seja interessante, para que possa participar da mesma de uma forma relevante sem necessariamente destruí-la, ainda que seja reconhecido como um vilão social.
Quando tomo um comprimido qualquer, sinto exatamente o gosto desta doença, sinto as partes de mim que se ocupam dela e das quais não consigo me livrar, expelir. São como fungos por todo o meu corpo, mais velhos até mesmo do que minha memória. Depois me vem à cabeça o preço, o formato desta necessidade, o sumiço de qualquer perspectiva. Por fim, é como se não houvesse mais alimento para aqueles fungos, mas eles continuassem ali, famintos, e tudo o que eu pudesse fazer é esperar alguém retirá-los de meu corpo pra mim. Ou alguém resolver retirar seus próprios fungos enquanto eu retirasse os meus, juntos.
Esta sensação é a que identifico como a única sensação social pura - despida de qualquer construção externa - que conseguimos alcançar sozinhos e livres. Ela é a responsável por minha imaginação - que ocupa tanto espaço em meu tempo -, é a única razão pela qual me mantenho vivo.
Se esta base, uma idéia tão simples, consegue transmitir uma sensação tão diferente e interessante, imagine o que poderia acontecer se duas pessoas livres pudessem se encontrar? É algo que eu talvez nunca conheça em toda minha vida, mas que sempre esperarei conhecer.
A vida como temos agora, porém, é como um cigarro aceso pelo filtro.

domingo, 3 de outubro de 2010

h) Pode-se ser o juiz de seus semelhantes? Fé até o fim.

"Lembra-te de que não podes ser o juiz de ninguém. Porque antes de julgar um criminoso, deve o juiz saber que é ele próprio tão criminoso quanto o acusado, e talvez mais que todos culpado do crime dele. Quando tiver compreendido isto, poderá ser juiz. Por mais absurdo que isto pareça, é verdade. Porque se eu mesmo fosse um justo, talvez não houvesse diante de mim um criminoso. Se podes encarregar-te do crime do acusado que julgas em teu coração fá-lo imediatamente e sofre em seu lugar; quanto a ele, deixa-o ir sem censuras. E mesmo se a lei te instituiu juiz dele, tanto quanto é possível, faze também a justiça naquele espírito, porque, uma vez partido, condenar-se-á ele ainda mais severamente que o teu tribunal. Se ele se vai insensível a teu bom tratamento e zombando de ti, não fiques impressoinado; é que a hora dele ainda não chegou, mas chegará; e, no caso contrário, um outro em lugar dele compreenderá, sofrerá, condenar-se-á, acusar-se-á a si mesmo, e a verdade será cumprida. Crê firmemente nisto; é aí que repousam a esperança e a fé dos santos. Não te canses de agir. Se te lembrares, à noite, antes de dormir, de que não cumpriste o que era preciso, levanta-te logo para cumpri-lo. Se os que te cercam, por malícia ou indiferença, recusam ouvir-te, põe-te de joelhos e pede-lhes perdão, porque, na verdade, é culpa tua se não querem escutar-te. Se não podes falar àqueles que estão envinagrados, serve-os em silêncio e na humildade, sem jamais desesperar. Se todos te abandonam e se te expulsam com violência, ao ficares sozinho, prosterna-te, beija a terra, rega-a com tuas lágrimas, e essas lágrimas darão frutos ainda mesmo que ninguém te veja, nem te ouça na tua solidão. Crê até o fim, mesmo que todos os homens se hajam desviado e tenhas ficado fiel sozinho; leva então tua oferenda e louva a Deus, por teres sido o único a manter a fé. E se dois, tais como vós, se reúnem, então eis a plenitude do amor vivo, beijai-vos com efusão e louvai o Senhor, porque sua verdade cunmpriu-se, ainda que apenas em vós dois.
Se tu mesmo pecaste e estás mortalmente aflito por isso, rejubila-te por um outro, por um justo, rejubila-te por ser ele, em compensação, um justo e não ter pecado.
Se estás indignado e aflito por causa da iniquidade dos homens, a ponto de quereres vingar-te, teme acima de tudo esse sentimento; impõe-te o mesmo castigo que fosses tu mesmo culpado do crime deles. Aceita esse castigo e suporta-o, teu coração se acalmará, compreenderás que tu também és culpado, porque terias podido esclarecer os celerados mesmo na qualidade de único justo, e não o fizeste. Esclarecendo-os, ter-lhes-ias mostrado um outro caminho, e o autor do crime não o teria talvez cometido, graças à luz. Se os homens ficarem mesmo insensíveis a essa luz, malgrado teus esforços, e negligenciarem sua salvação, fica firme e não duvides do poder da luz celeste; persuade-te de que, se não foram eles salvos agora, sê-lo-ão mais tarde. Senão, seus filhos serão salvos em lugar deles, porque tua luz não perecerá, mesmo se estiveres morto. O justo desaparece, mas a luz fica. Após a morte do salvador é que a gente se salva. O gênero humano repele seus profetas, massacra-os, mas os homens amam seus mártires e veneram aqueles que eles mesmos fizeram perecer. É pela coletividade que trabalhas, pelo futuro que ages. Não procures recompensa jamais, porque tens já uma grande nesta terra: tua alegria espiritual, de que somente o justo partilha. Não temas nem os grandes nem os poderosos, mas sê sábio e sempre digno. Segue a medida, conhece os termos, instrui-te a este respeito. Retirado na solidão, reza. Prosterna-te com amor e beija a terra. Ama incansavelmente, insaciavelmente, todos e tudo, procura esse êxtase e essa exaltação. Rega a terra de lágrimas de alegria, ama essas lágrimas. Não te envergonhes desse êxtase, ama-o, porque é um grande dom de Deus, concedido somente aos eleitos".


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Trecho da obra "Irmãos Karamazov", Dostoiévski.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Cara para um amigo. Carta para os velhos tempos.



Cara, não sei bem por quê, mas me deu uma vontade incontrolável de vir aqui e encher uma caixa de diálogo de besteiras, não tão bestas quanto parecem ser.
Às vezes, quando me sinto mal, milhares de memórias me vêm à cabeça, muitas delas com você, apesar de uma amizade não tão longa. Lembro quando comecei a tocar com bandas, a primeira vez que você me viu tocando num ensaio da Fenris. Maurício na bateria, eu tocando guitarra e cantando, só isso. Naquele dia voltamos pra casa conversando sobre música, eu irritando você, você me irritando e nós dois nos entendendo.
Quando começamos a tocar na Legendarius, me senti como se tivesse finalmente encontrado algo que há muito vinha procurando. Nós simplesmente sabíamos sobre o que se tratava música. Todas nossas cicatrizes de adolescente misturadas a sorrisos. A balalaika no fim de semana era uma mistura de superação e diversão. Aqueles momentos representam exatamente do que se trata música, independente da qualidade que saísse dos nossos instrumentos.
E esses milhares de defeitos que você tem e faz questão de não abrir mão, de teimosia, tendo consciência de que largá-los é perder uma parte valiosa do que você é. Cada um deles é parte essencial de nossa amizade e da admiração que tenho por você. Não gostaria mais ou menos de você se você os perdesse, mas gostaria menos de você se você abrisse mão de algo de forma que te fizesse se sentir vazio, seja esse algo bom ou ruim.
Só queria renovar algo que não consigo ver morrer. Mesmo que agora não tenha absolutamente nada pra fazer em Varginha, nós amadurecemos tanto de forma tão rápida e, ainda assim, nos mantemos reunindo, fazendo qualquer merda, qualquer horário, porque sabemos o valor de tudo o que aconteceu. Essa é uma boa cicatriz que não pode sair do nosso corpo.
Com o tempo vou descobrindo que a amizade não é encontrar alguém com todas as qualidades que você espera, mas sim alguém que te faça se sentir você mesmo, mesmo que a pessoa tenha os defeitos que você nunca esperou. E esses defeitos realçam nela as qualidades que você nunca procurou, mas que se tornam indispensáveis pra você com o passar do tempo.
E esse passar do tempo não consegue apagar certas coisas. Não importa o que você seja agora, não importa o que você se torne, você é um irmão pra mim e sempre será.
Um abraço e se cuide, meu caro "Nocêra".

http://www.youtube.com/watch?v=wrivjzw0RlI

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Feche os olhos e dance

Todos já foram a uma festa que simplesmente não poderia ser descrita. Do tipo com poucas pessoas, do tipo que a banda se perde em músicas que nunca tocaria em uma festa comum. Em um lugar ordinário, no qual nunca se imaginaria uma festa, mas que se transforma no lugar perfeito pra uma na mente de todos os que nela estiveram presentes.
A banda tocava “O caminho do bem”, mas não era um cover perfeito. A música havia se tornado única, própria, como uma composição de todos os corpos que se deixavam embalar por ela. A pouca iluminação especial do lugar vibrava com todas as mãos pro alto, pessoas que dançavam como se aquele fosse o único lugar vivo no planeta, ao menos naquele instante. As cabeças dançavam ritmadas, mesmo aquelas que não estavam acostumadas a seguir a música.
Dentre tantas cabeças, uma se destacava, como se fosse natural. Parecia ter sido criada para aquele ambiente. Cabelos chanel, muito escuros, aparentemente pintados. Olhos delineados e castanhos, aparentemente muito velhos, mas os mais jovens olhos daquela noite. Os olhos não pertenciam à noite, a noite pertencia aos olhos. De pele muito clara, usava uma blusa folgada, de alças estreitas, caindo leves ao corpo, deixando a um top a incumbência de esconder os seios. Era baixa – ainda que usasse um salto considerável, o qual não parecia atrapalhar a dança - e magra, talvez até magra demais. Longas meias escuras subiam por bonitas pernas até encontrar o que parecia interessar os diversos homens que dançavam ao seu redor. Uma saia alcançava a parte superior de seus joelhos. Dançava lentamente, de forma sensual e ao mesmo tempo nada vulgar, apesar de deixar transparecer na inocência daquela mulher algo de muito misterioso. Era uma dança tão sutil – e ao mesmo tempo bem composta – que parecia fazer parte daquela melodia, mas da forma certa. Não era um solo, era algo que dava à música um ambiente e permitia que ela alcançasse as pessoas. Seus olhos se fechavam e abriam a todo tempo, como se, apesar de às vezes longe daquele ambiente, estivessem sempre atentos, à espreita, procurando algo. Não sabia o que era, mas sabia que precisava encontrar algo, e não era algo convencional. Fechava os olhos e olhava para o alto, para as luzes, para as teias de aranha abandonadas nas junções da parede com o teto.
Piscou e olhou para a varanda, onde um homem destoava daquele lugar, olhando a rua vazia. Não era, porém, descartável ao ambiente. De repente era como se tudo pudesse desmoronar se não houvesse aquela peça incomum em um canto. Como se o ambiente pudesse novamente se tornar comum, impróprio para uma festa. Como se a música pudesse voltar a ser apenas um cover normal e, como se imagina, inferior ao próprio Tim Maia.
Parou de dançar e puxou um dos homens ao seu redor. A música pareceu ter diminuído seu volume, como se alguém em algum lugar estivesse gravando uma cena ao redor daquela mulher, querendo que todos os que estivessem atentos pudessem ouvir suas palavras.
-Você conhece aquele cara? – apontando para o homem na varanda.
-É o Rafael. – sorriu – Ele é estranho deste jeito, mesmo.
A mulher então voltou a dançar, se aproximando lentamente do homem. Colocou suavemente sua mão na parte interior da coxa de quem, aparentemente, conhecia muito mal aquele rapaz que não parecia querer participar da festa. A mão da mulher estava próxima ao lugar onde ele desejava que ela estivesse, mas não tão próxima quanto ele esperava. A mulher então o beijou nos lábios e, aproximando-se de sua orelha, disse:
-Obrigada, querido.
Começou, então, a caminhar em direção à varanda, deixando o homem no que se supunha ser uma pista de dança, ainda com os olhos fechados.
Rafael havia acendido mais um cigarro e parecia ainda olhar para o mesmo ponto da rua vazia, como se não estivesse realmente ali. A mulher apoiou seus braços nas grades da varanda e, tirando um cigarro de sua bolsa, dirigiu-se a ele:
-Posso fumar do seu lado?
Rafael não respondeu. Aparentemente sequer ouvir o que aquela mulher havia lhe dito.
-Meu nome é Sofia.
Seguiu-se um silêncio constrangedor. A pergunta seguinte está implícita, aquele homem, porém, parecia estúpido, ou morto. Sofia pôs-se a pensar e percebeu que ele talvez não devesse realmente responder àquela pergunta convencional. Já sabia o nome dele, por que perguntou? Por que as coisas devem seguir estes roteiros simplesmente estúpidos? Não poderia simplesmente começar a conversar com o homem, já se referindo a ele com seu nome? É provável que isto o assustasse, é verdade, mas era melhor do que o tédio. Qualquer coisa é melhor do que o tédio, por mais horrível que ela possa parecer, ao menos a princípio, antes que a experimentemos.
-Você dança, Rafael?
Rafael, porém, não só não se assustou, como não esboçou qualquer reação àquela fala. Sofia cogitou que a rua fosse para ele uma memória, uma memória mais interessante que qualquer coisa nova que pudesse acontecer àquele homem. Talvez fosse uma rua vazia apenas para ela, enquanto pra ele fosse um filme, fosse sua cena favorita do cinema. Lembrou-se de repente de Uma Thurman dançando “Girl, you’ll be a woman soon” em "Pulp Fiction". Como adorava aquela cena. Se ela estivesse sendo reproduzida agora em uma televisão em algum canto deste bar, era provável que ela se dirigisse até ele e a assistisse até o fim, sem querer ser incomodada. Havia, porém, algo de impulsivo que a forçava a incomodar aquele homem. Talvez fosse ele o que ela deveria encontrar naquele dia. Talvez ela estivesse apenas sendo muito tola, imaginativa, infantil.
Virou-se de costas ao homem e começou, então, a dançar lentamente muito próxima a ele. Estava realmente muito sensual. Até seu perfume barato parecia ter-se transformado em um perfume francês, que exalava de seu pescoço suado ao ponto certo - como se, naquele momento do que mal era um diálogo, já estivesse no ápice de uma relação sexual – e bem próximo do rosto de Rafael. O homem então virou-se para que a mulher pudesse ficar mais próxima dele e, aproximando-se de seu ouvido, finalmente disse algo:
-Eu costumava esperar a madrugada, para que as ruas, que eu via movimentadas todos os dias, estivessem vazias e eu então pudesse caminhar por elas e pensar livremente. Hoje, já não há mais propósito nisto. Nesta época, as pessoas eram vazias, mas ainda havia tesão, e eu as via como madeiras ocas, esteticamente agradáveis. Agora, é como se a madrugada fosse como o dia. As ruas estão sempre vazias e eu estou sempre sozinho.
Sofia então levou as mãos ao cabelo e, após quase agachar-se, levantou-se lentamente, inclinando para a frente, arrastando as nádegas pela perna do rapaz, até atravessar a virilha e chegar próximo à barriga, inclinando-se então para trás, pondo seu pescoço nos ombros do homem que, apesar de magro, os possuía largos. Era sua vez de aproximar sua boca a um dos ouvidos do homem e preencher o silêncio. Não tinha certeza se o queria fazer. Sentia uma enorme excitação naquele homem silencioso, como se em suas poucas palavras repousasse algo que a deixasse confortável o suficiente para ficar nua ali mesmo, em meio àquela multidão.
-Quer dizer então que você não pode me ajudar a encontrar o que estou procurando?
Rafael, de repente, sentiu-se despertar. Não fazia idéia de como havia chegado ali. Olhou ao seu redor e ninguém dançava, todos estavam parados, o observando fixamente, com olheiras profundas. No palco, restara apenas o baixista. Nunca havia presenciado algo daquele tipo: a banda inteira retirar-se do palco e restar apenas o baixista. Seus dedos percorriam o instrumento levemente, e não da forma agressiva como se costuma ver nos solos de baixo desacompanhados de outros instrumentos. As notas eram suaves, não tremiam nem um pouco, mas eram, apesar de tranqüilas, sinistras. Havia algo de macabro naquilo tudo. O baixista possuía as olheiras mais profundas do lugar e o observava de forma agressiva, como se quisesse matá-lo e então comer toda sua carne, até que não restasse qualquer vestígio seu no mundo. Parecia nervoso, cansado daquilo tudo, como se estivesse ali por obrigação apenas, esperando que ele terminasse logo com Sofia e a cortina pudesse, então, abaixar-se no palco. Correu os olhos pela festa e todos haviam voltado a dançar normalmente. “Foi um delírio momentâneo”, pensou. “É um daqueles sonhos novamente”. Sentiu, então, uma vontade incontrolável de vomitar.
-Meu pau ainda sobe, se é o que você quer saber. Só não estou tão certo se ele pode proporcionar a mim o mesmo prazer que pode proporcionar a você. Preciso ir ao banheiro.
Com seus braços, removeu Sofia de sua frente. Tirou a jaqueta de couro que trajava e a jogou no chão. Parecia uma jaqueta cara e o homem não aparentava ter dinheiro o suficiente para comprar outra daquela no dia seguinte, mas simplesmente não se importava. Usava apenas uma regata branca por baixo. Partiu apressadamente para o banheiro, empurrando as pessoas que se posicionavam na sua frente. A maioria delas sequer percebeu o gesto agressivo; outras o encararam, mas voltaram a dançar segundos depois.
Sofia sentiu-se ofendida com as palavras. Percebeu então o quanto havia sido vulgar nestes últimos momentos. Fechou os olhos e tentou esquecer aquele curto momento estúpido. Interpretou a fala de Rafael como um convite e decidiu segui-lo ao banheiro. Não sabia bem o que estava fazendo, mas estava determinada a fazê-lo.
Já na entrada do banheiro, Rafael percebeu que a mulher o seguia e a esperou. Puxou-a pela mão para o banheiro masculino. Sofia realmente esperava que aquilo acontecesse no banheiro feminino, sentir-se-ia menos constrangida desta forma. Percebeu, então, que o queria tanto que mal conseguia sentir o constrangimento. Estava naquele estado em que se pode contornar qualquer coisa depois, o que importava é que aquilo acontecesse.
Rafael não foi nada sutil, a puxou pelos braços e a empurrou para uma das cabines, onde nem se preocupou em levantar sua blusa ou qualquer coisa do tipo. Abaixou seus jeans apertados e, pressionando a mulher contra a parede, colocou suas mãos por baixo de suas saias e abaixou sua calcinha. Levantou-a, escorando-a na parede, e a penetrou de forma violenta. Sofia passou os braços pelos ombros de Rafael e tentou segurar-se para não gritar. Rafael não produzia qualquer som e não parecia segurar-se para não fazê-lo. No entanto, parecia muito excitado. Estava preso em seu mundo. Não queria que Sofia dissesse nada. Também não queria dizer nada.
Sofia percebeu, então, que não ouvia mais nada ao seu redor. Falou e não ouviu sua própria voz. O homem parecia gritar, gemer. Ela simplesmente não ouvia. O prazer parecia trancá-la em um armário e encolhê-lo aos poucos. Já não estava sozinho, mas trouxe consigo a dor. A dor não era como uma ferida; aumentava o prazer e o prazer aumentava a dor. Os dois continuavam interagindo até um ponto em que tudo parecia prestes a explodir. O homem não havia colocado camisinha, ela não conseguia se importar. Sequer entendia por que havia lembrado deste detalhe.
Sentiu, então, a vontade de vomitar do homem penetrar seu corpo. Prazer, dor, náuseas, silêncio. Tudo aquilo parecia duelar com sua mente por seu corpo. Sua mente parecia ceder, queria desfazer-se. Tudo era muito confuso. Como podia saber que o homem tinha vontade de vomitar? Era impossível. Notou que sabia muito sobre o homem. Rafael nada havia dito, mas ela sabia tudo. Conhecia o homem melhor do que a si própria, e não havia nisto muita diferença. Tudo o que o homem era estava nela, escondido em algum lugar. Rafael era mais Sofia do que ela própria.

Acordou em seu minúsculo apartamento. Sentia dores nas costas, dormia mais uma miserável noite naquele colchão horrível. Estava nua e se masturbava. No criado-mudo, ao lado de sua cama, havia um copo cheio até a metade de vodca pura, ruim, barata. Arremessou o copo contra a parede. Gritou, pôs-se de joelhos, puxou seus cabelos, chorou até a última lágrima, como se, secando-se as lágrimas, o sangue de seu corpo fosse parar de correr e ela finalmente pudesse ver-se livre de tudo aquilo.
Virou-se, então, e dormiu. Nua e só.

(...)

Hoje a música está viva
Suas unhas estão no vento
Suas cores estão nos lábios
Raios de luzes escuras
Sopros de lâminas partidas

Passando o dedo entre os cabelos
De jovens passageiros, já perdidos
Mas com coragem suficiente
Pra tentar mudar o mundo
Pra cravar os dentes em tudo
O que tiver sangue ou semente

Em toda noite, a música vive
Mas hoje sua madeira está oca
Revela por seu véu natural
Tudo o que há de bem ou mal
Como a mãe louca, que espera do filho morto
Permissão pra enterrar o próprio corpo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O corpo

Minha vida está estacionada. Às vezes sinto vontade de empurrá-la com toda força, mas logo após, agarro-a e a imobilizo. Medo de envelhecer. Medo de sobreviver por muito tempo. Este medo da dependência e a vontade de que minha existência salte todas as etapas restantes e desapareça, uma vez que já está morta.
Encosto a cabeça na janela do ônibus, antes ou após minha aula, e me ponho a observar o asfalto a se movimentar infinitamente sob mim, o pneu a percorrê-lo agressivamente. Eu, no entanto, sei que continuo parado. Doeria se minha cabeça defendesse o asfalto? Talvez. Quando o ônibus está cheio, procuro um ponto para fixar meu olhar. Costumo optar por meu tênis, o que me mostra como a beleza não só pode estar nos detalhes, mas que também algumas coisas precisam ser não mais do que detalhes para que sejam belas. Procuro deixar a música o mais alto possível em meus fones de ouvido, para que não ouça nada ao meu redor; para que o exterior seja apenas imagens. Às vezes assisto à televisão, mas gosto de deixá-la muda. É estranho que, em um mundo com espaço para tantas palavras, grunhidos, gestos, o silêncio possa ser o mais confortável.
Mas meu tênis bem sabe que isto não é suficiente. Eu sei o que aqueles inúmeros estudantes estão dizendo. Às vezes tenho a sorte de pegar algum trabalhador, com uma cansativa jornada de trabalho – mal recompensada – e me sinto confortado. Posso ver que em sua cabeça não se formam palavras, mas a dor se expressa de forma plena. Ele a compreende, faz-me ter pena daqueles que buscam a compreensão argumentativamente nas palavras, nos choques de imagens. Nele, o sentimento parece ter forma própria, assim como as tantas outras formas de expressão.
Abaixo a cabeça e novamente lamento por todos os estudantes, debatendo suas aulas, cursos; suas idéias, como se nelas houvesse o fogo da vida. Enganaram-nos quando disseram que devemos estudar, ler, nos politizar, entender. Quando disseram que devemos nos interessar pelo interior – e não exterior – das pessoas. Que terrível engano, que consome tudo o que encontra.
A inteligência destrói tudo, todas as verdades. Mostra que em seu mundo, que tenta separar-se do corpo, tudo é artificialmente construído e que, quanto mais a compreensão derruba, mais aproxima-se o vazio. O corpo, não. O corpo invoca dores, libera hormônios, grita sensações. Da dor à sexualidade, todas as sensações são igualmente prazerosas, só elas provam que você ainda está vivo.
Lembro-me de imaginar que um dia, quando eu menos esperasse, uma garota estranha entraria no ônibus, se sentaria do meu lado e diria: “Você tá ouvindo The National? É minha banda favorita” – como nos filmes –, e daí viriam novamente as sensações, com elas o sangue voltaria a correr em meu corpo e, a partir daí, estaria vivo. Hoje olho à minha volta em um ônibus e vejo diversas possíveis garotas, com este potencial, e às vezes me provocam até um sorriso irônico, debochando de mim mesmo. Não as quero, porém, do meu lado. Quero que as sensações fiquem longe de mim e que eu permaneça para sempre um cadáver.
Este é o mundo do corpo. Não pertenço a ele.

domingo, 1 de agosto de 2010

Realidade

Primeiro, as bases da vida.
Um comprimido para manter-se acordado. Um comprimido para dar energias. Um comprimido para manter-se calmo na entrevista de trabalho. Um comprimido para esquecer o que não lhe é conveniente. Um comprimido para construir uma personalidade cheia de peculiaridades.

Segundo, para evitar a solidão.
Um comprimido pela boa aparência. Um comprimido para sorrir. Um comprimido para ser divertido. Um comprimido para dançar. Um comprimido para ereção. Um comprimido para brincar com os filhos. Um comprimido para tirar férias.

Finalmente, o momento em que os comprimidos não são necessários (embora possam ser úteis).

sábado, 31 de julho de 2010

Portador de grave doença é parte de história que faz crer no futuro da humanidade

"Sabe essas histórias que ainda fazem acreditar que a humanidade é boa? Esta é uma delas. Como um tsunami, essa gente invadiu uma casa ainda com mofo, piso de cimento cru e pouca luz. Bateu, entrou e transformou. Iluminou todos os espaços, retirou o mofo, levou piso bonito, começou a pintar e fez aquele menino sobrevivente ter a certeza que nem tudo está perdido. A mãe do menino chora de alegria. Belisca-se. Vive um sonho. O menino, embasbacado e de olhos acesos, repete: “Eu sabia que alguma coisa boa ia acontecer”.

E aconteceu. Mas, afinal, que história é essa? Voltemos 48 dias no tempo. No sábado, 12 de junho, o Correio contou a luta de Lucas Neres Pereira, 13 anos, para sobreviver. E a luta que travara, desde que nasceu, para ser mais forte que as previsões médicas. Portador de uma grave enfermidade pulmonar, a bronquiolite obliterante (doença respiratória causada por um vírus que destrói o pulmão e pode afetar outros órgãos, como o coração).

Lucas nasceu no Hospital Regional de Planaltina (HRP). Com um mês de vida, os primeiros sinais da grave doença: muito cansaço para respirar. Numa ida de emergência ao HRP, um médico plantonista pediu um raios X. E foi incapaz de ver que metade do pulmão do bebê estava comprometido. Indicou nebulização. Era, segundo aquele homem e jaleco branco, apenas um resfriado.

No dia seguinte, o cansaço aumentou. Irani Neres Santana, então com 22 anos, a mãe, desesperou-se. Com os filhos nos braços, embarcou para a Rodoviária do Plano Piloto. Chorava e pedia para ele não morrer. Ao desembarcar ali, um carro da Polícia Militar levou mãe e filho para o Hmib. O médico de plantão, o intensivista neonatal Carlos Zacconeta, estava de saída.

Ainda assim, voltou para atender aquela criança que morria. Sorte que nem toda gente de jaleco branco é igual. Um raios X às pressas revelou: Lucas tinha uma lesão severa em dois terços do pulmão esquerdo. Ficou ali por 80 dias, na UTI neonatal. E, nesse período, momentos vários de incerteza, dor e angústia. Houve dias em que até os médicos achavam que chegara ao fim. Irani chorava agarrada aos santos de devoção.

Como milagre, o menino valente surpreendia. Mas seu estado ainda era grave. Do Hmib, foi transferido para o Hospital de Base (HBDF). Lá, ficou aos cuidados da pneumologista Rita Heloísa Mendes, que cuidou de Lucas com dedicação comovente. Nunca escondeu qualquer informação — nem nos momentos delicados.

Com 13 meses de vida, a primeira cirurgia, para retirar parte do pulmão esquerdo. Era só o começo. Aos 7 anos, a segunda e a mais radical: retirada total do órgão. Meses de internação, recaídas, lágrimas e oração da mãe. Idas e vindas ao hospital. Preocupação com o pulmão direito, que já apresenta sinais de falência — dois terços já estão lesados.

Corrente solidária
Há 48 dias, portanto, esta história foi contada. Lucas e a mãe moravam numa casa humilde em Arapoanga, bairro de Planaltina. O banheiro, cheio de mofo, era o pior inimigo para a saúde do menino. Na casa, humilde, faltava muita coisa. E a luta pela sobrevivência, a dificuldade em comprar remédios e o aparelho de que precisava com urgência, o oxímetro, que mede a saturação de oxigênio no sangue.

A reportagem comoveu Brasília. O telefone de Irani começou a tocar logo nas primeiras horas daquela manhã de sábado. “Toca até hoje”, agradece a mãe. Gente que não quis se identificar. Mas ajudou. Gente que foi lá, ligou, visitou. Conferiu a história de perto.

A ajuda chegou como milagre. E de todos os lugares. Uma atrás da outra. Veio o oxímetro, que custa R$ 1,6 mil. E uma história que arrancou mais lágrimas de Irani. O aparelho, novinho em folha, foi doação de uma mãe que perdera o filho. O menino também se chamava Lucas. “Mas eu não vou morrer, não”, decreta Lucas, o valente.

Chegou também uma bala de oxigênio portátil, no valor de R$ 600, que lhe dará liberdade até para viajar. Cestas básicas, leite da dieta especial e dinheiro em conta. “Paguei tudo o que devia na farmácia”, diz Irani. E não parou por aí. Dois irmãos, comerciantes de Taguatinga, assumiram a reforma do banheiro cheio de mofo. Um major da PM deu as tintas.

E, no dia seguinte à publicação da reportagem, no domingo 13, uma turma do barulho — gente de todos os cantos do DF, homens, mulheres e até crianças — invadiu a casa do menino. Ele não sabia. Chegaram entoando o hino de guerra. O menino engasgou.

A Mancha Verde de Brasília, torcida organizada do Palmeiras, levou solidariedade e esperança para Lucas. Assumiu a reforma total da cozinha, da área externa e do novo quarto do garoto — com direito até a faixa do time na parede. Levaram também cestas básicas e uniforme completo do Verdão.

Como a torcida chegou ali? Na matéria de 12 de junho, numa única frase perdida no meio do texto, informou-se que o menino era torcedor do Palmeiras. Não havia outra menção. Foi o suficiente para tamanha mobilização. “Meu pai, palmeirense como eu, me acordou no sábado e disse: ‘Leia essa matéria. Precisamos fazer alguma coisa. Ele é palmeirense...’ Eu tava dormindo, nem escutei direito”, conta o assistente administrativo Bruno Liporoni, de 32 anos.

Ao acordar, Bruno leu o jornal. “O leite até esfriou na xícara. Liguei pra três amigos da Mancha Verde e decidimos que iríamos fazer alguma coisa.” E-mails foram disparados. No dia seguinte, Bruno e seu exército verde estavam lá, naquele lugar muito distante de onde todos vivem. Seguiu-se uma corrida para fazer o bem. “Percebi que quem recebe ajuda ganha menos do que aquele que pode ajudar. Fomos nós quem ganhamos”, emociona-se o rapaz.

Quarenta e oito dias se passaram. Visitas de integrantes da torcida, para acompanhar a obra (feita pelo tio de Lucas, o pizzaiolo Hidevá Neres, 30, que nas horas vagas se torna pedreiro) tornaram-se constantes. Na manhã de ontem, lá estava parte deles. Vieram até dois torcedores de Cuiabá (MT), para conhecer Lucas.

O menino que desafiou a medicina — muitos pacientes morrem antes dos 2 anos de vida — comoveu a torcida mais uma vez. “Essa é uma corrente do amor. Só quero agradecer a todos que me ajudaram”, disse, com sorriso de vida. Evângelo Franco, 45 anos, diretor do Centro de Ensino Especial 2 de Brasília e diretor de imprensa e mobilização da Mancha Verde, ouviu o que aquele menino disse.

Tentando esconder a emoção, ele admitiu: “A gente tinha obrigação de fazer isso. E que possa servir de exemplo para outros torcedores, outras ONGs. A filha de Franco, a adolescente Ana Luíza, 12, acompanhou o pai. Ao se deparar com realidade tão diferente da sua, refletiu: “Se todos fizessem um pouco, o mundo estaria melhor”. Ricardo Leal, 23, estudante de serviço social, resumiu: “É uma atitude cidadã”.

E o povo cantou. Bradou. Carregou-o. Marcou um superchurrasco na casa nova dele, assim que a pintura externa ficar pronta. Ele sorriu como se fosse a pessoa mais feliz do mundo. E é. Quem vive de forma surpreendente com apenas um quarto do pulmão direito (o transplante não lhe é indicado em função da anatomia do tórax) e obrigou uma gente de jaleco branco a rever tudo que pensava saber tem direito à felicidade.

Ele sabe disso. Tanto sabe, que faz planos. “O meu sonho é conhecer o Marcão (goleiro do Palmeiras).” Alguém duvida de que ele vai conseguir? A vida é engraçada. Um detalhe, perdido no meio de um texto, pode mudar a vida de alguém com a mesma velocidade de um gol. Daqueles que arrebentam a rede. Foi um golaço!"



Fonte: Correio Braziliense (www.correiobraziliense.com.br)

Por Marcelo Abreu



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É verdade: o único produto do futebol é a violência.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A esperança de um homem louco.

Era uma vez um homem louco. Por todos os dias de sua vida, este homem foi a uma praça movimentada de sua cidade e gritou, até que ficasse sem voz: "O amor salvará o mundo".
Havia, porém, um detalhe: este homem nunca acreditou em suas próprias palavras. Sempre se considerou um idiota que continuava a gritar algo em que não acreditava.

Até sua morte, o mundo não havia sido salvo pelo amor. Seu mundo interior? Também não foi salvo pelo amor. Ao contrário, o amor consumiu seu espírito ao lhe impor a dúvida. Por que gritava aquilo todos os dias, se não acreditava que era possível? Duvidava de si, do mundo, do amor. Decidiu parar de perguntar. E que erro gravíssimo, imperdoável.

Eu conheço pessoas que ainda gritam, todos os dias, que acreditam no amor. E não pararam de fazer perguntas. Fico feliz por elas. Elas me tornam feliz por saber que passarei minha vida miserável ainda com o conforto de poder enxergar o que há de mais belo no pensamento humano:

Esperança.

sábado, 26 de junho de 2010

E-storia

Vinte e seis de junho de 2010. Este foi o dia em que sua voz gritou em minha memória. Sem contexto, sem por quê, como estas coisas que parecem manifestações puras de vida, correndo de qualquer padrão.
Lembranças tristes ou felizes? Lembranças incertas, como todos nossos beijos. Eu nunca poderia dizer que te amo - ou amei - com convicção, assim como nunca poderia ter certeza de que estaria mentindo se dissesse. A arte pode se expressar de forma infeliz, alegre, nostálgica, otimista, mas nada se pode dizer sobre sua essência. Os relacionamentos comuns são expressões artísticas, nossa relação é a arte em sua essência. Misteriosa, independente, inconcebível. Entendo agora por que nunca consegui lhe escrever uma canção: você não está nas letras do papel, mas na mão que move o lápis. Seria triste dizer que te amo: nossa relação é tudo, pode ser qualquer coisa, nunca somente amor.
Dizem que pessoas especiais se conhecem pelo acaso. Te encontei quando minha vida havia desmoronado, em um lugar onde nenhum de nós queria estar, por causa de uma camiseta velha. Te reencontrei quando sua vida havia desmonronado, quando você passava pelo único sentimento que ouso dizer que compreendo. A partir de ali, fomos nada mais que dois perdidos tentando fugir de um mundo ao qual não pertenciam e construir outro onde pudéssemos começar de novo; não porque víamos o mundo da mesma forma e da mesma forma éramos vistos por ele: fugitivos, incógnitas, pessoas reais.
Cara, tu não vai nem acreditar, mas, sem você, "2001 - uma odisséia no espaço" tem uma cena a menos.
Cara, cê não vai acreditar, mas, que me perdoe o ortomolecular, você me faz pensar no futuro.
Você é incrível, Vilma. E linda.

sábado, 19 de junho de 2010

Idealismo e instinto

Deve-se abolir a correlação do raciocínio com a idéia simplória de progressão em princípio, meio e fim. O homem é um ser racional o tempo todo, este raciocínio variando no grau de desenvolvimento atingido, o que dependerá do indivíduo, e do grau de consciência do indivíduo para com a formação da linha de raciocínio, variando quanto à superficialidade desta. Logo, o homem pode visualizar um fim e realizar um processo consciente de busca a este, mas também pode receber à consciência um fim, dissecando desta todo o processo.
Algumas ações, porém, são baseadas em raciocínios cujos processos de desenvolvimento sequer chegam à consciência do indivíduo, este a realizando e muitas vezes desconhecendo até mesmo o fim, algumas vezes conhecendo, além do meio, somente o fim, sendo toda esta linha algumas vezes contraditórias às crenças de quem a realiza, de forma que, se conseguisse visualizá-la em sua formação, perceberia que é uma ação vulgarmente irracional(uma vez que lhe falta coerência), apesar de ainda ser produto do raciocínio. Estas ações nem sempre serão produto de mentes perturbadas ou patologias, podendo vir a ocorrer em mentes sadias. É certo, porém, que independente da natureza do raciocínio, haverá um princípio.
Portanto, o “instinto” será sempre uma definição vulgar. O homem tem finalidades puramente racionais e finalidades intrínsecas a necessidades biológicas. Se uma pessoa tem um fim de necessidade biológica, deve-se analisar também a presença de um ou mais meios para alcançá-la. Se um homem tiver fome, portanto, e vários meios de saciá-la, optará por um meio que esteja adequado à imensa quantidade de fatores ao seu redor (inclusive e principalmente de moralidade social); por sua vez, se não houver meios adequados às circunstâncias ao seu redor, a necessidade biológica forçará o indivíduo a apelar por sua sobrevivência pelo simples princípio de autopreservação (o que é da essência não somente do homem, como de qualquer ser vivo), o qual ainda assim passará (no caso do homem) por todo o processo racional, surgindo um fim que force um meio. Um homem que mata por fome, portanto, não mata instintivamente, mas por uma racionalidade forçada a circunstâncias.
A essência humana também se manifestará não só influenciando no desenvolvimento do raciocínio em qualquer âmbito, mas também lançando à consciência fins cujos processos de identificação da sua necessidade (em sua maioria) estão em partes da mente que o homem (determinado, que pratica a ação) ainda não alcançou compreensivamente, como uma ação tomada por alguém que prejudique uma outra pessoa sem trazer benefícios ao realizador.
Nota-se, porém, que os raciocínios seguem um padrão lógico igual, independente de seu grau de superficialidade mental, de forma que, ao desenvolver seu raciocínio em questões puramente intelectuais, o homem estará desenvolvendo ainda mais meios para procurar sua autopreservação e saciar suas necessidades biológicas e de sua essência. Vulgarmente, o desenvolvimento da racionalidade implicará também no desenvolvimento instintivo, ao desenvolver sua capacidade de busca a alternativas (superficiais ou não à mente) de saciar suas necessidades biológicas. Este pensamento não é reversível ao passo que um homem que se deixa guiar pelo instinto, estará deixando-se guiar por processos que muitas vezes não conhece conscientemente.
Os fins buscados por uma mente e a necessidade destes variarão, portanto, de acordo com questões biológicas, sociais, naturais e próprias do indivíduo.
Apesar da capacidade de desenvolvimento do raciocínio da qual o homem é dotado, deve-se levar em consideração também a predisposição ao desenvolvimento deste, que variará de indivíduo, não desconsiderando o fato que todos terão a capacidade de desenvolvê-lo, cada um atingindo as determinações de seu limite racional. A predisposição também indicará, além de um desenvolvimento quantitativo e qualitativo do raciocínio, maior alcance sobre a profundidade destes; uma compreensão do instinto, de forma vulgar. Esta predisposição poderá variar, podendo criar, por exemplo, a tendência natural a se alcançar um alto nível de desenvolvimento do processo ou podendo variar a intensidade de cada fator (biológico, social, natural ou própria do indivíduo) no momento de afetar o desenvolvimento do processo. A predisposição ao raciocínio, por sua vez, é gestante de responsabilidade para o indivíduo em relação a seus semelhantes.
Desenvolvendo o raciocínio, o homem desenvolverá também o alcance da essência de sua espécie, potencializando sempre o conflito tendencioso aos homens de racionalidade evoluída (não sendo estes superiores) entre sua mentalidade crítica e a essência “instintiva” que carrega. Para isto, a solução será sempre o grau de julgamento crítico que o homem poderá desenvolver sobre si mesmo e os outros. Esta crítica será, portanto, essencial não somente ao homem que pretende ser mais bem adaptado ao meio social ao seu redor, mas também ao homem que pretende uma reformulação do ser.
Apesar de todos os homens vazios terem, como finalidade de vida, uma satisfação pessoal vulgar, não se pode exatamente definir a finalidade de vida de um homem predisposto naturalmente ou intencionalmente à racionalidade, podendo-se dizer unicamente que não é uma finalidade vulgar, uma vez que um homem racional pode buscar produzir uma razão à sua existência e outros simplesmente ter como razão um desprezo a esta.


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Este é mais um rascunho do livro já citado anteriormente.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

(H)a vida embaixo do papel(?)

Muitos se perguntam quem sou. Arruinar-se-iam se encontrassem resposta a esta pergunta. Para muitos minha existência é completamente despercebida. Aos outros tantos, rastros, sombras de mim, e nada mais. Presença soturna, porém incômoda. Misteriosa, porém viva. Presença que dá o gosto da liberdade e guia pelo caminho da miséria. Presença onde felicidade é ausência: de dores de cabeça, insônia, solidão, silêncio, vício.
Alguns se perguntam se sou Deus: a estes, digo que sou o contrário do padrão. Outros se perguntam se sou um criminoso, um canibal: a estes, digo que não há um dia sequer em que eu não sorria por não ser humano, criatura que tanto invejo. Meu crime é o que mantém minha existência tolerável, direciona-se a existências que seriam vazias sem mim, a existências que querem se esconder tanto quanto eu e o fazem da mesma forma, soprando esta corrente até que a arte domine o mundo e todos vivam sós. Não concedo resposta porque não julgo o sentimento que já entendo; escondo para não ser julgado.
Há apenas uma diferença certa entre nós: a folha que lhe seve de chão se apresenta a mim como céu. Você não ouve minha voz, mas escolhe entre segui-la ou não a todo instante. Em minha presença, o estupro pode ser tão belo quanto o amor. O grito pode ser tão infeliz quanto o sopro. Da masturbação, sou o silêncio póstumo. Da insônia, sou os olhos.
Estou nos contornos azuis ou pretos das pautas de todas as folhas. Flutuo no vazio mar cristalino da folha sulfite, produzindo ondas, como se fosse mera gota de chuva, ser que também invejo.
No papel em branco, entendo o terror: minha nudez se expõe, afoga-me. Um assassino caminha em minha direção e eu não possuo braços. Um palhaço diverte a platéia de seu circo com piadas sobre meu pranto. O branco e os pesadelos, verdadeiros e sinceros como são.
Textos vulgares são como lonas, máscaras de oxigênio: me mantêm vivo, escondido, e nada mais; como uma pessoa que não passa fome, mas se alimenta de pílulas todos os dias por dez anos.
Cada palavra infeliz que um poeta miserável deposita num pedaço de papel, porém, cai sobre mim como cobertor. Os poemas de caligrafia quase ilegível constroem paredes ao meu redor, revelam-se um quarto quente e úmido em medida certa, com o odor perfeito, sem janelas ou portas, mas somente minha existência, com as verdades e mentiras cobertas, sem poderem ser assim discriminadas. Ao poeta, resta o fôlego da esperança (que cabe a ele - não julgar - sentir se é verdadeiro ou artificial), a força de manter-se vivo por mais um período de tempo.
Se qualquer coisa dita acima fizer qualquer sentido para você, guarde suas lágrimas: nem elas poderão salvá-lo de mim.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O perdão

Senhor, eu te perdôo.
Perdôo por ter-me imposto esta existência medíocre. Dedico a ti a bondade que sempre esperaste de amar teu crime até o fim e ainda assim perdoá-lo antes de partir, como um desumano sentimental.

Amém.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Trecho de "Escritores medíocres"

"Sou um péssimo escritor, músico, compositor, poeta. Nao há, aqui, humildade besta, o que não condiz com minha pessoa, mas um fato reconhecido por qualquer pessoa que tenha comigo razoávelo contato.
Há pessoas, porém, que cruzam meu caminho e conseguem notar os sentimentos que estão por trás de palavras e notas que não são capazes de expressá-los de forma completa, o que faz com que eu não deixe de me considerar artista, mas me veja como um artista solipsista. Não são estas pessoas super-dotadas ou sobrehumanas (assim como não são meus sentimentos). Desconheço a razão pela qual elas conseguem compreender o que está por trás de minhas cortinas: elas simplesmente podem.
Sou, além de péssimo escritor, também humano. Ficaria satisfeito com o simples fato de estas pessoas absorverem parte do que sinto e praticarem. Porém, infelizmente, sou também humano. Este desabafo não deve ser visto como súplica ou exigência, porém, como humano, esperei sempre que houvesse por parte destas pessoas gratidão - na forma de sentimento fraterno -, o que não recebo, talvez por arrogância defensiva própria ou por estar enganado quanto a tudo.
Por vezes tentei me libertar desta expectativa e ficar feliz por mudar, ainda que infimamente, estas pouquíssimas pessoas, mas nunca consegui me libertar de minha humanidade, sem sucesso.
Não vejo nestas pessoas - que vão à fundo em meus sentimentos, me vendo a princípio não só como um péssimo escritor, mas como também um grande ser humano, e, posteriormente à absorção do meu íntimo (muitas vezes o distorcendo, o que é o mais doloroso), voltam a me desprezar como somente um péssimo escritor e nada mais (o que talvez eu seja) - erro ou acerto, uma vez que tudo talvez não passe de minha culpa, mas vejo na situação insustentabilidade humana.
Por ser humano, agora evito o papel, meu violão, evito abrir os olhos em público; por ser humano, adentrei na arte; por ser humano, permiti às pessoas que pudessem me abandonar.
Por ser humano, aspiro arte e agora tenho medo de expirá-la. Por ser humano, penso agora em largar tudo.
Esta humanidade, que produz o que tenho de valor em seu ponto forte e o quer esconder por seu ponto fraco.
Por ser humano e disposto a ser julgado, desde que na condição de humano.

E isto explica muita coisa."



De autoria de um blogueiro obeso e desconhecido.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Asperger

Canto que silencia
Vinho que anestesia
Sonho que grita
Só pra mim

O segredo da ejaculação:
Ninguém nunca saberá quem sou.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Migalhas

Página em branco
O velho, antes manco
Agora vive sem pernas
Espera, em miséria
Que suas lágrimas chulas
Derretam sua bengala muda

Hoje chove água do mar
A loucura está permitida
É real ferida
Mata mas não cria
É dor que não dói

Não serei dois filhotes no inverno
O teatro está cheio
Mas hoje não haverá poesia
Deixe-me sua piedade, em migalhas

Migalhas maltratadas de pão

sexta-feira, 23 de abril de 2010

The last time I saw Richard (Joni Mitchell)

"Last time I saw Richard was Detroit in 68
And he told me all romantics meet the same fate
Someday, cynical and drunk and boring someone
In some dark cafe
You laugh, he said, you think you're immune,
Go look at eyes
They're full of moon
You like roses and kisses and pretty men to tell you
All those pretty lies, pretty lies
When you gonna realize they're only pretty lies
Only pretty lies, pretty lies

He put a quarter in the wurlitzer, and he pushed
Three buttons and the thing began to whirl
And a barman came by a fishnet stockings and a bow tie
And she said: "drink up now it's getting on time to close"
Richard, you haven't really changed, I said
That's just now you're romanticizing some pain that's in your head
You've got tombs in your in your eyes, but the songs
You punched are dreaming
Listen, they sing of love so sweet
When you gonna get yourself back on your feet?
Oh and love can be so sweet, love so sweet

Richard got married to a figure skater
And he bought her a dish washer and a coffe percolator
And he drinks at home now most night with the TV on
And all the house lights left up bright
I'm gonna blow this damn candle out
I don't want nobody comin'over to my table
I've got nothing to talk to anybody about
All good dreamer pass this away someday
Hidin' behind bottles in dark cafes
Dark cafes
Only a dark cocoon before
I get my gorgeous wings
And fly away
Only a phase, these dark cafe days"

domingo, 11 de abril de 2010

(...)

Meu corpo não vale nada
Não vale as pedras sob meus sapatos
Não vale as idéias que se chocam com a solidão

O solo de minha mente é impróprio ao que não é racional
Meu coração não suporta o que faz sentido total

Meu amor é saliva
Minha retribuição é o álcool
Isto não faz sentido para vocês
A bondade é minha natureza
A maldade é minha solução
Isto não faz sentido para vocês

Injetem sangue em minhas veias
E me ensinem a ser humano
Ou me matem com todo o amor
Que insistem em não compreender
Ou me masturbem
Até que eu não consiga pensar
Me maltratem com o pior dos fetiches
Até que me sinta em casa
Até que me sinta no inferno
Até que todas as luzes se apaguem

Quando você for embora, não se esqueça de cospir em mim
Para que eu perceba que sou pior que você
Não esqueça de fechar a porta
Para que eu perceba que estou sozinho
Não esqueça de nunca contar a ninguém o que viu
Para que eu não tenha de responder perguntas infantis
Não esqueça de gritar seu testemunho
Para que Deus saiba que tentei
Para que todos saibam que Deus não existe
Até que todos percebam
Que a arrogância não é um belo defeito
Que nenhum arrogante quer ser só
E que o Álcool é o sexo dos miseráveis

Antes de ir embora, me sirva outra dose
E prometa que vai tentar
Depois não olhe para trás
Porque a noite acabou
Mas o que sinto está em seus pulmões
E é eterno

Eu te amo

quarta-feira, 31 de março de 2010

Mal nenhum

"Nunca viram ninguém triste?
Por que não me deixam em paz?
As guerras são tão tristes
E não tem nada demais

Me deixem, bicho acuado
Por um inimigo imaginário
Correndo atrás dos carros
Como um cachorro otário

Me deixem, ataque equivocado
Por um falso alarme
Quebrando objetos inúteis
Como quem leva uma topada

Me deixem amolar e esmurrar
A faca cega, cega da paixão
E dar tiros a esmo e ferir
O mesmo cego coração

Não escondam suas crianças
Nem chamem o síndico
Nem chamem a polícia
Nem chamem o hospício, não

Eu não posso causar mal nenhum
A não ser a mim mesmo
A não ser a mim mesmo
A não ser a mim"

Cazuza - Mal nenhum

Pensamentos em migalhas de pão

Se antes fumava, agora apenas assiste ao cigarro queimar.
Percebo que o fato de encontrar-se a liberdade ao perder as esperanças possui uma amplitude ainda maior do que a que sempre admirei. Isto porque me dei conta de uma enorme contradição pessoal: nunca acreditei na felicidade - da forma como as pessoas procuram -, no entanto, sempre vi nas formas imaginárias da liberdade algo de feliz e real. A liberdade, porém, é o estado mais infeliz que um homem pode experimentar, se alcançada de uma maneira permanente e extensa. O que as pessoas procuram é como pôr a língua na borda de um doce com um recheio horrível, uma espécie de "liberdade de fim de semana", uma sensação que mantenha o desejo funcionando enquanto se vive em uma prisão mental.
O homem sempre deseja se apegar a algo, seja este outra(s) pessoa(s) ou objetos quaisquer. É natural que sinta-se horrível não podendo se apoiar em nada, se for indiferente a tudo; é como um filho que perde os pais antes de nascer, como não ter por que lutar ou em que sonhar. Um tédio mental repleto de idéias muito mais numerosas do que em uma cabeça comum, porém sem valor para quem está ao seu redor e, portanto, sem oportunidades e importância para/de serem expostas.
O raciocínio começa a se cortar, como se fosse uma doença incurável e com a qual a convivência é impossível.
Só resta, a uma pessoa livre, a ambição de que as outras também se libertem, para que tudo tenha valor. Ainda há, dormindo em meio à liberdade, o egoísmo e o sonho, que ardem e machucam sem se expor.
É recorrente à pessoa livre o pensamento no suicídio, não porque este vá libertá-la, mas porque a liberdade isolada é uma ferida em progressão.
E como dói.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Porque nada temos...

"Porque nada temos…
O Chile estava em ruínas.
Outro terremoto.
O mesmo país.
Morte e desespero em todos os olhares.
A Copa do Mundo era o de menos.

Porque nada temos...
Como pensar em Copa do Mundo quando se contavam os mortos.
As mães chorando pelas calçadas.
Talca e Concepcion vermelhas de sangue.

Porque nada temos…
A FIFA ameaça mudar a sede do Mundial.
Carlos observa o seu país devastado.
Carlos que nascera longe dali.
Em Niterói.
Um chileno carioca.

Porque nada temos…
O Chile ouve as palavras de Carlos.
O Chile junta seus trapos e farrapos humanos.
Seu coração e sua honra.
Constrói pedaço por pedaço em desenho mágico.
Campos. Cidades. Vidas.

Porque nada temos…
Dos que nada possuem chega a força para voltar a sonhar.
O futebol torna-se símbolo da ressurreição nacional.

Porque nada temos…
Dois meses antes da Copa do Mundo de 1962.
O Chile está pronto para receber Pelé, Garrincha e Masopust.
O país chorando suas cruzes.
O país de pé novamente.

Porque nada temos…
Os jornais dão a manchete.
Aos 38 anos morre Carlos Dittborn.
O coração dizendo adeus.
Como um final de tarde em Viña Del Mar.
Como um poema de Neruda."

Roberto Vieira

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Medo

Ando com medo de tantas coisas. Medo de escrever. Tenho medo de ficar rodeado de pessoas, tenho medo de morrer só. Tenho medo de ter um filho e me tornar meus pais, tenho medo de nunca ter filhos.

Ando recusando ligações, dormindo pela manhã e vivendo à noite. Quero ficar só, é tudo o que me importa. O maior prazer em escrever é ouvir as teclas ecoando no silêncio, como um inseto gritando à noite, como um lembrete: "não se preocupe, não há ninguém em volta de você, ninguém está acordado. Só você no mundo".

Tenho medo de ter medo. Tenho medo de esquecer que eu tenho de ter medo. Tenho medo de ter de me expor desnecessariamente. Medo de fugir e nunca mais me expor. Medo de esquecer o que são as pessoas, pra que elas servem, o que elas fazem. Medo de pensarem que sou uma pessoa. Medo de ter amigos. Medo de ter de sair do quarto. Medo de viajar com meus pais.

Tenho medo que minha mãe descubra quem eu sou. Tenho medo de um dia ter de me explicar pra alguém. Tenho medo de chorar e alguém ver. Tenho medo de acreditar no que penso, em que vocês são. Tenho medo de luzes. Tenho medo de ser encontrado no escuro.

Tenho medo de ficar lúcido. Tenho medo de dormir e sonhar. Tenho medo de viver demais. Tenho medo de morrer de câncer. Tenho medo de ouvir músicas que me marcaram. Medo de lembrar. Tenho medo de pensar demais. Tenho medo das cidades pequenas. Tenho medo de não ser mais um na multidão. Tenho medo de proteger os fracos.

Tenho medo de sentir, de ouvir, de abrir os olhos. Medo de compor. Tenho medo de amar uma mulher de verdade. Medo de transar por amor. Tenho medo de ler um muro pixado. Tenho medo de deitar no meio do mato. Tenho medo do mar. Tenho medo de não fechar a porta. Tenho medo do que sou capaz de fazer.

Tenho medo da dor física. Medo da morte esperada. Tenho medo de matar um pai. Tenho medo de induzir um suicídio. Tenho medo que meus pés fiquem descobertos pelo edredom. Tenho medo de ter errado o caminho. Tenho medo de não haver caminho certo. Tenho medo que leiam este texto. Tenho medo que fiquem em meu apartamento sem eu estar presente.

Tenho medo de morar sozinho. Tenho medo da intimidade. Tenho medo dos pêlos do meu corpo. Tenho medo de descobrir que ninguém serve para nada. Tenho medo do calendário, do Natal, do meu aniversário. Tenho medo de não morrer antes de ficar velho. Tenho medo de terminar este texto e esquecer algum medo. Tenho medo de conseguir escrever todos meus medos.

Tenho medo de reencontros. Tenho medo de ficar bêbado em público. Tenho medo de nunca poder dirigir uma moto. Tenho medo de virar advogado. Tenho medo de palcos. Tenho medo de bater pênaltis. Tenho medo de trair. Tenho medo de reler meus textos. Tenho medo da fome. Tenho medo de deixar o cabelo crescer. Tenho medo de fazer solos de guitarra.

Tenho medo da métrica, da rima, da simetria. Tenho medo do meu rosto. Tenho medo de olhos escuros. Tenho medo de injeções. Tenho medo de não me decepcionar com alguém. Tenho medo de conhecer alguém até me decepcionar. Tenho medo de decepcionar quem amo. Tenho medo de não amar ninguém.

Tenho medo de descansar. Tenho medo de cumprimentar e não se lembrarem de mim. Tenho medo de ter problemas com os dentes. Tenho medo da lua desaparecer. Tenho medo de não sentir mais saudades. Tenho medo de mudanças. Tenho medo de não haver perspectivas de mudanças.

Tenho medo de não entender um quadro, um filme. Medo de não compreender um sentimento. Medo de não resolver um exercício de matemática. Medo de deitar na rede. Medo de ficar gordo. Medo de pensar no futuro.

Tenho medo de que este texto seja uma mentira e eu não tenha medo de nada.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sound of Silence


"Hello darkness, my old friend,
I've come to talk with you again,
Because a vision softly creeping
Left it's seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence.

In restless dreams I walk alone
Narrow streets of cobblestone,
Neath the halo of a street lamp,
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That slip the night
And touched the sound of silence.

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more,
People talking without speaking,
People hearing whithout listening,
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence

'Fools', said I, 'You do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach you.'
But my words like silent raindrops fell
And echoed
In the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon god they made,
And the sign flashed out it's warning
In the words that it was forming,
And the sign said: 'The words of the prophets are
Written on the subway walls
And tenement halls'
And whispered in the sounds of silence"


(Simon and Garfunkel - The sound of silence)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

(...)

(...)
Seu sufismo não fazia sentido. Seu caminho e seu consolo eram a dor, o ódio, a misantropia, o egocentrismo. Era um sufista ateu.
Se Deus não existisse, nada do que ele via teria sentido; se Deus existisse, nada teria sentido de qualquer forma. Ainda assim, acreditava encontrar o sentido de tudo.
Sua função de dar às pessoas o que as falta através de todos os livros que nunca conseguira escrever não era sustentada por qualquer motivo racional, mas ele sentia seu peso e, à noite, quando seus ombros gritavam, era mais real que qualquer lei do universo. Bêbado, assistia a si mesmo demonstrar toda infalibilidade de sua idéia sem se compreender; estava certo, nunca errava.
Quando via sua mulher sofrer, queria vomitar sua "doença" (não a considerava patológica, mas se referia a ela dessa forma em seus pensamentos, sem saber ou procurar saber por quê), via que não era mais apenas ele que abria mão de sua vida pela verdade do mundo. Nunca deveria ter se casado.
Era a pessoa mais racional e também a mais emotiva do mundo.
(...)



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Este trecho foi retirado de um livro que estou escrevendo. Ainda é um esboço, podendo ser modificado posteriormente.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Vícios

“Como deve ser pular desta sacada?”
Todas as verdades viciam. Eu podia fechar os ouvidos, olhos, forçar minha mente para estar em outro lugar, mas pra onde quer que eu corresse, essa pergunta continuaria ecoando em minha mente. Era uma idéia que esteve presente em minha vida por dois anos e se encontrava adormecida em um canto empoeirado, poeiras as quais se transformavam em vômito, poesia e música.
Estava há dias sem tomar qualquer remédio quando esta pergunta trouxe todos os dias que se passaram de volta pra mim em dez segundos, como tempo perdido, como pesados dez dias a mais.
O primeiro a desferir golpes de conforto acabou por consolar, na verdade, a mim. Eu não era hipócrita, eu não tinha o direito de convencê-lo de que aquilo era errado, eu e ele não éramos diferentes. Aquele hipócrita que agora beijava sua mão seria, em alguns dias, o mesmo que o empurraria de um prédio meses depois, enquanto aquela pergunta estaria ecoando em minha cabeça, destruindo minha vida, me puxando pelo mesmo caminho.

O próximo encontro contou com um amigo a menos. Um amigo feio, burro e chato a menos. As pessoas sentiram sua falta nos momentos em que deveriam ser engraçados para a maioria e torturantes pra um único indivíduo. Nos momentos em que eram obrigados a expor os defeitos um do outro, porque o dono de todos os defeitos estava morto.
O maior problema é que eu ainda não conseguiria ser hipócrita, mas ainda teria de suportar aquela maldita pergunta ecoando em minha cabeça, em curvas, passeando por todos meus pensamentos, vindo rir e me bater enquanto estivesse em um ônibus, uma festa ou almoçando com a família. Embriagado, dez anos depois, escreveria aquela pergunta à caneta em meu braço, na parede de meu quarto, choraria sem me achar no direito de chorar, sem conseguir acreditar que haveria um porquê pra isso.

A verdade é um vício, nunca uma resposta, nunca uma solução. Enxergar isso é simplesmente notar que a verdade não tem valor algum, que não existe. É ter consciência de que não sofremos por nada, que o sofrimento é simplesmente independente. A verdade é um vício, o sofrimento não é verdadeiro, é algo que existe e independe de qualquer padrão.
Sofrimento não é a verdade, sofrimento é a resposta que nunca conseguiremos enxergar, a doença que arderá todos os dias em equações que nunca desvendaremos, o qual morreremos ignorando, isolando; algo que não queremos entender, mas simplesmente evitar.

A verdade é um vício, o sofrimento é apenas uma lágrima.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A primeira prece

Hoje eu conheci um doente mental.
A maioria das pessoas pensa que sofrer é saber que um inferno espera quem comete pecados. O verdadeiro inferno é ter a certeza de que não há infernos que esperem quem tente compreender o mundo.
Ele havia sido traído e estava triste. Eu não compreendia o que ele dizia e ele sabia que dizia demais. Seria um romance à lua cheia, se ele não fosse retardado e eu tivesse preconceitos diversos misturados à perversidade benevolente de querer ser alguém. Eu precisava ajudá-lo, não sei por quê, e ele me respondeu: “Sou eu quem está te ajudando, e não você quem está me ajudando”. Foi a única coisa que ele disse, e me respondeu a ignorância de muitos, menos a minha. Não era o que eu sentia, mas eu acreditava no que eu pensava, apesar de sentir que pensava o que não traduzia aquilo que consistia em mim.
Era só uma pessoa que havia sido traída e não podia deixar que eu o acompanhasse pra casa e, enquanto ele caminhava embora, até atingir o horizonte e o lugar no qual eu nunca mais poderia vê-lo, lágrimas pulavam de meus olhos e tentavam acompanhá-lo em vão; eu ficaria ali, parado.
Ele conhecia além do que podia compreender. Sabia que, enquanto eu estivesse parado ali, assistindo a ele caminhar até desaparecer, eu estaria descobrindo parte do que eu era: um doente que precisa ajudar outros doentes, um delinqüente responsável que detesta seu próprio serviço.
Tudo o que eu queria era ficar bêbado e assisti-lo desaparecer, tentando fingir que isto nunca havia acontecido. Que todas minhas memórias e minha consciência fossem embora junto com aquele retardado mental. Aquele surdo com o qual tentei me comunicar e o qual tentei ajudar com lágrimas de minha bondade semi-hipócrita.
Posso nunca ser bem-sucedido ou posso ser bem-sucedido enquanto você estiver lendo este desabafo, mas indiferente disto (e que isto fique bem claro), peço que você corte em pedaços tudo o que não escrevi e sou, tudo o que escrevi e não sou, tudo o que sofri e não senti, tudo o que senti e não sofri, tudo o que bebi e não vomitei, tudo o que vomitei e não bebi; tudo o que sou e não sei, tudo o que sei e não sou. Tudo.
Mate-me com um machado, faça com que eu sinta dor. Acabe com tudo.
Amém.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Analgésicos e solidão

"Salva o mundo e ganharás
Analgésicos e solidão"

Foi o que lhe disseram
Aceitou, sem pensar no que viria
Sentia na pele a vertigem da verdade
Passava pelos olhos a ânsia da mentira
Construiu para si uma coroa de pesadelos
Espancou-se com a dor que nada valia

Dele restou um bilhete
Para o filho que não teve:

"Deus não existe;
Deixe este peso de lado
E vá brincar de miséria"

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Poema da catarse sem rimas

A insônia é o sufismo dos loucos
A arrogância é o sufismo dos sábios
A prisão é o sufismo dos livres
O vazio é o sufismo dos vícios

A noite é o sufismo dos poetas
A felicidade é o sufismo dos ignorantes
O pinto é o sufismo das putas
O não-ser é o sufismo do ser

E vice-versa

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Passageiro de um esboço passado

Já estive em tantos lugares
Que não estou em lugar nenhum
A cada passo o passado não passa
"Pra onde vou?", esta pergunta eu passo
Por enquanto fico aqui,
Sentado neste compasso
Nos olhos, passando o passado
Passo a passo
Três por quatro, escasso
Infindável esboço
Vida

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Green Day - Emenius Sleepus

"I saw my friend the other day
And I don't know
Exactly just what he became
It goes to show

It wasn't that long ago
I was just like you
And now I think I'm sick and
I wanna go home

How have I been, How have you been
It's been so
What have you done with all your time
And what went wrong

I knew you back when
And you, you knew me
And now I think you're sick
I wanna go home

Anybody ever say no?
Ever tell you that you weren't right?
Where did all the little kid go?
Did you lose it in a hateful fight?
you know it's true"

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Errar é Humano. Acertar é desumano.

Estou na porta da casa da Júlia. Muito álcool.
Carol discute sobre como não liga para o que os outros pensam e como a fidelidade é boçal enquanto João, gritando como de costume (quando está bêbado), debocha dela.
Daniel discursa sobre como é emocionante ser flamenguista e o Flamengo é um time superior enquanto João, gritando como de costume (quando está bêbado), debocha dele.
Júlia não consegue parar de rir. Gargalha. Serve álcool para todos: “Mais ‘Balalouca’. Mais ‘Balalouca’”. Irrita-me muito quando chama “Balalaika” de “Balalouca”. Mas sorrio.

Cara, quando eu iria imaginar que reuniria essas pessoas? Estávamos todos sentados no meio da rua, poderíamos ser atropelados a qualquer momento (mas nenhum carro passaria, eu sabia disto), completamente bêbados; mas eu sorria.
“Algo grande vai acontecer hoje”. “O quê?”. “Você vai morrer”.
“Vamos roubar o carro do pai da Júlia?”, sugeri.

Daniel, João e Carol, no banco de trás, morriam de rir, compartilhando estórias nas quais eu estava envolvido. No volante, Júlia estava muito séria. No banco da frente, eu tinha uma garrafa de “Balalaika” em mãos.
Júlia passava dos 100km/h e a sensação era excelente. Ao contrário do que se pensa, a velocidade é um remédio anestésico e hipnótico. Desacelera o coração, tudo fica sereno, embaçado. É uma nova embriaguez.
“Errar é humano. Acertar é desumano”.
Na beirada da estrada, eu movia arbustos da forma como eu desejasse, como se fossem dedos de minhas mãos; prolongamentos de meu corpo.
“Errar é humano. Acertar é desumano”.
Dobrava as faixas amarelas da estrada, como se eu as formasse com a ponta de um lápis. Como se fossem vibrações das cordas de um violão; do meu violão.
“Errar é humano. Acertar é desumano”.
Abri a janela e fiz ventar muito forte em meu rosto, fechando os olhos. Já não mais ouvia a voz de ninguém. Virei-me para trás e notei que eles ainda conversavam. E riam muito. Virei-me para Júlia: ela ainda estava séria. Tentei fazê-la sorrir, mas não tinha controle sobre isto.
“Errar é humano. Acertar é desumano”.
Fechei os olhos e me vi, com os braços abertos e as pernas juntas e esticadas, em minha cama. Não podia me mexer, minhas mãos e pés estavam pregados.
“Errar é humano. Acertar é desumano”.
Abri os olhos e vi uma curva acentuada à frente. Do outro lado, um enorme e íngreme barranco.
“O carro atravessará a curva. Seus amigos não se machucarão. Você morrerá”.
Júlia pisou no acelerador e tentou virar o volante. Ela não parecia assustada, não sei se realmente pretendia escapar da curva. Talvez estivesse tão bêbada que nem compreendia que havia uma curva a nossa frente. Que se machucaria e poderia morrer se não a fizesse. Talvez nem percebesse que estava em um carro. Talvez nem estivesse pensando. O carro atravessou a curva, voando pelo barranco.

Suspenso no ar, o carro parou. O tempo parou.
Olhei para trás, todos estavam parados, em uma gargalhada congelada. Olhei para o lado, Júlia ainda estava séria.
Acho que agora eu deveria estar lembrando toda minha vida, mas na verdade, foda-se.
Em uma montanha-russa, a adrenalina não é completa porque no fundo tem-se a noção de estar seguro. Se eu não tivesse medo de morrer, aquela seria a melhor emoção de minha vida. Seria o meu momento. Valeria pelo que vivi e pelo que ainda viveria. Se eu não tivesse medo da morte. Não tenho medo da morte.
Dei uma golada da garrafa de “Balalaika”. “Queria poder fazer sexo agora”. Uma risada e o tempo voltou a andar.

Assisti ao carro ser inteiramente destruído, capotando infinitas vezes, sendo moldado à força do acaso. Sentia cada pancada nele em meu corpo, sem haver, porém, dor, como se estivesse anestesiado. Caímos em um local plano.
Eu estava vivo.
Saí do carro, este de cabeça para baixo. Pela janela, puxei Carol. Merda, enquanto a puxava, sua perna se rasgou na ferrugem. Ela estava horrível. Seu rosto todo roxo, inchado e repleto de cortes.
Puxei João. Porra, como era pesado. Algo havia penetrado em um de seus olhos, o qual sangrava muito.
Pela outra janela, tirei Daniel. Uma de suas pernas parecia quebrada, com algo que deduzia ser um osso se projetando em sua calça jeans, com muito sangue. Enquanto o puxava, seu osso agarrou na lataria. Náusea. Senti o vômito chegar à minha boca, mas o engoli. Um enorme corte procurava ênfase, se extendendo desde o início de sua barriga até a metade de seu peito.
Puxei Júlia e ela não parecia ferida. Seus olhos estavam abertos, mas estava morta. Todos eles estavam. Eu sabia disto.

Arrastando seus cadáveres, fiz com eles um círculo ao meu redor. Eu não respirava. Não havia vento, barulho, não havia nada.
Acendi um cigarro e o fumei até o fim, sem pensar em nada – também não havia pensamentos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

(...)

De que me adianta tentar escrever neste papel
Se sentimentos não podem ser descritos?
Muito menos deve-se tentá-lo fazer
Sinta-os, e só

Em uma balança de qualidades e defeitos
Os sentimentos nos mostram a beleza
Independentes, o que os mantém vivos
Fugitivos do mundo no qual foram criados

Aos versos mais brancos e livres
Os sentimentos atribuem sentido
Miteriosos, como olhos desconhecidos
Carregando, em suas entrelinhas, o prazer da dúvida

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Itacoatiara



Buraco na cortina
Transparece o sol
Tecido rasgado
Transparece o estofado
Brilho na saliva
Transparece a loucura
Vazio da alma
Transparece no olhar

Barraco de tijolos
Desnudos, expostos
O chão é o próprio solo
Lágrimas de água do mar
O teto são estrelas
Cabeça regada ao luar
Casa velha desmorona
Transparece alguém a sonhar

Sonhos, sonhos
Trabalhar, trabalhar
Risca na madeira podre
Sua vontade de gritar
Suado, acorda à noite
Beber leite, talvez um cigarro fumar
A fumaça transparece
Alguém que se põe a cantar

É só o princípio do fim
Dia-a-dia que corrói o ser
Lembrou seu pai, vida idêntica
Pediu a Deus para não crescer
Mais uma prece oca
Não atendida pelo vento
Transparece, em sua caligrafia torta,
Sua vontade de morrer

Mas ele não sabe disto
A chuva ofusca tudo
Mudo, se põe a pensar:
Fim de semana ganho um beijo
Que mate meu desejo
Do sal ardente do mar
Na vida, o sonho flutua
Itacoatiara, nada é pesar

(...)

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

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domingo, 8 de novembro de 2009

Futebol: manifestação cultural ou bem de consumo?

Duas coisas devem ficar bem claras antes de qualquer crítica vinda de mim:
Sou palmeirense, torço pra um time paulista que sempre foi favorecido pela mídia em sua história; estou em posição de lançar qualquer crítica sobre o caráter de mercadoria que assume o futebol? Talvez.
Devemos, acima de tudo, ter clara a idéia de que a Mídia e o Futebol são estruturas administrativas separadas, apesar de toda interdependência, de forma que a administração do Futebol Brasileiro não pode controlar o poder de modelar o esporte que a mídia possui (basta lembrar que a mídia não é, por exemplo, um critério de qualidade musical, mas influencia na música de forma direta sem que a música tenha o que fazer para frustrar esse controle, podendo no máximo buscar ferramentas alternativas a ele). Seria muito mais coerente, sem dúvidas, porém, que um torcedor do Vitória, Sport ou Cruzeiro fizesse aqui esta crítica.
Mas o que há de possível para que se evite que a justiça se perca completamente no futebol? É óbvio e até desnecessário e engraçado que eu inclua aqui (porém, mais necessário do que aparenta ser): o aparelho que regula a justiça futebolística: CBF, STJD.
Estou aqui desmerecendo o time do Fluminense? Há dez rodadas digo que o Fluminense está jogando excelentemente bem e defendo suas chances de escapar do rebaixamento (escapatória pela qual torço assim como torci pelo Vasco no ano passado; acho que acima de tudo, devemos torcer pela grandeza do futebol), além de tudo, o Fluminense é um time carioca que tenho uma enorme simpatia, a torcida mais bonita que vi pessoalmente (Nas quartas-de-final, contra o Corinthians - claro que não sirvo de critério, por ter visto poucos jogos no Maracanã) e uma torcida que realmente tem presença marcante nos momentos de necessidade de seu time.
Estou aqui desmerecendo o time do Palmeiras? Excetuando o Vagner Love, jogador que venho criticando antes mesmo de voltar ao Palmeiras, me orgulho e muito do elenco de meu time (crises são normais em todos os campeões brasileiros).

De que se trata esse texto, afinal?
Da justiça esportiva no Brasil. Será que ainda existe um critério?
Vagner Love foi expulso no jogo contra o Santo André em uma falta que, na minha opinião, não era nem pra amarelo. Foi denunciado e eu concordo com o STJD: o critério utilizado foi a opinião do árbitro dentro de campo, ignorando as conclusões posteriores sobre a real presença de violência desnecessária ou não. Foi suspenso e, até aí, com minha concordância
Mas se o critério é esse, como é que funciona denunciar o Danilo por conclusões posteriores (cartão amarelo no jogo contra o Corinthians) e não pela opinião do árbitro? O futebol se decide dentro ou fora de campo? Vamos criar um critério pra isso? Uma justiça mais racional? O fato é que fica a dúvida se o Danilo vai ser suspenso ou não: já não sei, porque com a derrota contra o Fluminense essa suspensão pode se tornar "desnecessária". Mas vamos ainda além; se as conclusões posteriores são aceitas, por que não validar o gol do Obina contra o Fluminense hoje? Afinal de contas, ficou claro que o Simon, mais uma vez, errou.
"O Simon mais uma vez errou"? É, sim. Apesar de o Rogério Ceni dizer que o Símon sempre prejudica o São Paulo, alguém lembra qual jogo tirou o Palmeiras da disputa do título ano passado? Acho que eu lembro: o Jogo contra o Grêmio, apitado pelo Símon. Aquele que o Grêmio segurou o jogo em faltas desde o princípio e o Simon atribuiu dois cartões amarelos já no fim do segundo tempo; aquele, em que assisti à atitude mais bonita de minha vida (goleiro Marcos, aos 30 do segundo tempo, já correndo pra área e buscando fazer o gol, mostrando por que é o maior ídolo da história do futebol brasileiro), apesar de a beleza da raça do santo ser incoerente com a sapiência do árbitro.
Mas espere aí, ir além disso? Então vamos: A Justiça desportiva deixa bem claro que não tolera que questões relacionadas ao futebol sejam resolvidas na Justiça comum, mas deixa nossos árbitros totalmente vulneráveis? Quer dizer então que o Rogério Ceni pode ser expulso no jogo contra o Santos e difamar publicamente o Simon, que o STJD não tomará partido nenhum do caso? Quer dizer então que o esportista deixa de ter Direitos Civis pra entrar no futebol?
Ou será que não? Ou será que o Obina teria sido punido hoje, se saísse de campo crucificando o Simon (em uma situação em que ele realmente merecia)?
Não vou além e citar a Mala Branca que acabou por tirar os dois principais jogadores do Barueri apenas no confronto com o São Paulo (Val Baiano e Renê), porque esse é o assunto menos importante e o que a mídia, a mesma que favorece o eixo Rio-São Paulo, mais polemizou (apesar de todos nós, com exceção do Rogério Ceni - que é muito sábio, por sinal - achar o lance um pouco estranho).

Finalizarei dizendo que o futebol tende, mesmo, a cada vez mais funcionar menos como Manifestação Cultural e mais como Bem de Consumo, a não ser que nós nunca abandonemos nosso time e a cultura do mesmo. Com ou sem título, com ou sem justiça, o amor por meu time ficará sempre inalterado.

PALMEIRAS, SEMPRE!

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Epitáfio

VCKCW1CX4CR1CZCKU2CYC3T5C/S2C/Q

Passo a passo, do fim ao início.
Mergulhar além da superfície.

Vivo em seis cômodos vazios
E, por isso, sei melhor que ninguém:

Sentimentos são foneticamente diferentes
E invariavelmente dolorosos.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Lupus Eritematoso Sistêmico

Hoje descobri a felicidade nos detalhes
Nas cores das pernas desnudas
No cheiro putrefato dos açougues
Nos riscos da lâmina fina e afiada de uma navalha

Lágrimas são menos salgadas se você sorri
Mais quentes se você sonha
Duras, se você ama
Vazias, se você é humano

Me afogo em Lá Menor
Os acordes tapam meus ouvidos
Minha voz emudece minha razão
A melodia transforma meus sentimentos

Este cadáver, mais vivo que a vida

A música acaba e já não mais sou mudo
Meus pensamentos voltam, devoram meu ser
Aqueles, que deveriam construir
Que vêm do passado volumoso, do presente escuro, do futuro vazio

Bocas se voltam contra mim, no interior de minha pele
Me mastigam e gritam tudo o que sou
A mim, não resta o que dizer
Eles estão certos, isto é tudo

Este tudo que a vida tem a oferecer
Este nada em que se torna no meu interior
Esta dor na alma (alma que já não acredito ter)
Canibalismo

Hipocondria e aversão a remédios
Uma bailarina sem palco
Álcool e um quarto vazio
Álcool e um quarto vazio
Álcool e um quarto vazio
Álcool e um quarto vazio
Álcool e um quarto vazio
Álcool e um quarto vazio
Álcool e um quarto vazio

Quero ser encontrado morto em meu quarto
Corpo nu no chão empoeirado
Sem móveis, sem papel
Sem letras, sem dinheiro
Com um blues de pano de fundo
(Ou melhor, sem música)

Este cadáver, mais morto que a morte

domingo, 1 de novembro de 2009

Visão geral

Cara, preciso de umas férias de seis meses, em uma praia de nudismo, com a Fernanda Machado e uma caixa de Midazolam.
Enfim, não ando postando por, como sempre, ter deixado o que não me interessa - e, ao mesmo tempo, me é essencial - pra última hora, o que anda ocupando meu tempo, apesar de, como sempre, passar a maior parte do dia olhando pela janela sem fazer nada.
Pretendo postar, quando tiver mais folgado pra detalhes, o livro ("Silêncio") explicando poema por poema (mas algo me diz que nunca terei paciência pra fazer isso, então pode acontecer de eu só postá-lo sem explicar nada também). A maioria dos poemas estão no Blog, por isso não tô me apressando em colocar aqui.
Também criei um twitter (www.twitter.com/marceloriceputi), que pretendo usar concomitantemente ao blog.

Acho que isso é tudo. Abraços e se cuidem.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Sufismo psicológico e social

Prisão
É onde vivemos, apesar de você dizer que
Não
Pode pensar que sabe o que sinto, mas não pense que peço
Perdão
Descrever sentimentos e tentar entendê-los com
Razão
Esconder o lixo, expor o luxo e chamar isto de
Civilização

Perdão, não, você tem razão
A civilização é uma prisão

Perdão, civilização, você tem razão
Mas não vou viver nesta prisão

Ração
Branquear os dentes, remover as cáries, esconder a
Podridão
Forçar o riso, esboçar o siso e perder de vez a
Noção
Levantar da cova e trazer as novas a esse inferno
Pagão
Erguer o muro, lavar a alma e celebrar, em festa, a
Nação

Eu sei, nação, perdi a noção
Mas não vou mais comer sua ração

Me chame pagão, me crucifique com noção
Mas não vou mais cheirar sua podridão

O Bom-senso é censura
O Bom-senso é censura
O Bom-senso é censura
O Bom-senso é censura

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

This is the end, my only friend

Merda, cara, mas que merda. Vontade de encher um papel de xingamentos e porra alguma. Vendi, há muito tempo, minha felicidade ao demônio por um preço que nunca vou receber. Sonho com este erro todos os dias e, ao acordar, não ganho nem sequer o privilégio de me arrepender. Vida injusta filha de uma puta.
Nunca fiz questão de ser feliz e ainda não faço. A peça acabou, sem platéia alguma, e algum filho da puta esqueceu de abaixar as cortinas, me deixando aqui: nu, exposto, sozinho.
Uma doença só mata se você a descobrir em você. Nunca faça exames preventivos, corram da porra do exame de próstata. Escrevi um livro de poemas julgando ser um "Sentimento do Mundo", mas agora vejo que nunca será publicado, nunca será lido. É um livro sobre um câncer que as pessoas não sabem ou não querem saber que possuem. Eu sou a única pessoa nesta porra achatada onde dizem haver vida? É só uma porra, um esboço, um rascunho, de vida.
Obrigado a minha educação por me mostrar que vivemos sem poder fazer escolhas - seguimos uma estrada sem bifurcações, onde os fracos morrem no caminho e os fortes tomam champanhe na virada dos anos e, no fim, escrevem livros desinteressantes sobre suas existências; acordamos todos os dias e, depois de milhares de anos de racionalidade, concordamos com o instinto humano mais primitivo. Obrigado a meus amigos por serem complacentes com isso e devorarem tudo o que há de especial em mim e depois me abandonarem exposto (não preciso mais dessas merdas, fiquem com tudo isso pra vocês, não vale nada). Obrigado a meu pai por toda sua preocupação mesquinha e por se esquecer de olhar para minhas vontades (apesar de tudo, o amo, por saber que se parece comigo e que é uma pessoa totalmente diferente do que demonstra ser).
Agora quero que todos vão tomar em seus cus com a mesma certeza de que precisam ser sábios, passar no vestibular, fazer faculdade, trabalhar e ser bem-sucedidos. Vão se foder como se essa fosse uma verdade dogmática, como todas as outras verdades de suas cabecinhas burras e idéias medíocres.
Por fim, um agradecimento sincero à sociedade - e toda sua concepção moral - por comer todos meus sonhos; hoje os vejo pueris e percebo que de nada valeria realizá-los.
Vão todos tomar no cu, não faço parte de toda esta merda. Hoje tomei uma decisão e preciso estudar coisas às quais perdi todo o interesse à medida que perdi a esperança, mas só por mais dois anos e então desaparecerei.
Não me façam perguntas, não façam perguntas a ninguém, apenas vão tomar no cu.

"Pra que(m) serve seu conhecimento?"

domingo, 18 de outubro de 2009

Parede de fotografias

As paredes de meu quarto já não refletem mais
Tudo o que passou
Meu reflexo no espelho já não mostra mais
Tudo o que eu sou
(E o que será que eu sou?)

Na manhã, pela janela, o sol não ilumina mais
O que sobrou
Há um mar de escolhas e meu corpo não emerge mais
Fico com o que restou
(E o que será que me restou?)

Cartas que já não interessam
Versos no canto do caderno
Lembranças do que um dia foi sincero

O rosto no espelho do baneiro
Os olhos carregando o passado
Todo o fardo sendo abandonado

Os meus livros na estante já não refletem mais
O que aprendi
Os CD's e o walkman já não mostram mais
Tudo o que eu vi
(O que eu vi, eu aprendi)

A promessa da menina já não reflete mais
O que virá
E soprando na esquina, o destino, o acaso traz
O que será
(O que será que me virá?)

A cabeça deitada no travesseiro
No caderno, as idéias novas
A bondade que o mundo, lá fora, reprova

O espaço vazio na parede
Os retratos que ainda estão por vir
Retratos que um dia também vão partir

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Papel sujo de letras

Este é um papel imundo;
Imundo de letras,
Imundo de pessoas,
Imundo de mundo.

Vinte e sete homens arrogantes aqui cuspiram.
Seqüestraram lápis suicidas
E o encheram de besteiras;
Alguns até as acharam inteligentes.

Aqui, uma prostituta se deitou,
Abriu suas pernas,
Mostrou o medo e a vontade de ser feliz;
Alguns sentiram nojo; outros, se excitaram.

Os vinte e sete homens que se excitaram
Gozaram neste papel
E nele brotou vida;
Suja e desperdiçada.

Os vinte e sete homens que sentiram nojo
Vomitaram aqui o muito do que haviam se fartado
E tudo se tornou comida;
Comida do descaso.

Hoje não sei se as letras devoram o papel
Ou o papel devora as letras.
Não sei qual é a esperança e qual a morte.
Desconheço, como minha sorte e a mim mesmo.
Reconheço que, como tudo que no mundo é imundo,
(imundo como ele próprio)
Meus sentimentos passeiam por meu interior
E a tudo tornam sujo.

Carrego comigo uma certeza:
Este papel foi escrito por lágrimas;
As mais sujas e sinceras lágrimas.

Tudo o que vejo são lágrimas imundas dos olhos castanhos de Lisa.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Palavra

Antigamente, a palavra era feliz
Enchia de amores quem a observava
Suas aventuras eram vitoriosas
Seus riscos, psicológicos

Depois, a palavra ficou suspeita
Se difundiu
Era lágrima, esperança
Era coragem, mudança

Hoje, a palavra é muda

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Carne morta

Carne morta rasteja ao outro lado da porta;
Brinca, festeja, sorri
Mas está morta;
Morta como o que sente a natureza aos homens,
Morta como o que sente os homens a sua própria natureza,
Morta como a certeza da morte,
Morta.

Minha mão se move a cada cicatriz sua.
Minha mão se move a cada uma de suas deformidades.
O medo da eterna existência desta porta
Confronta-se com o medo do grotesco
Em uma batalha de surrealidade bêbada.

Até que um dos lados silenciou:
A noite se tornou dia;
A felicidade, inconstante como deveria ser.

Eu era um bêbado;
Não mais ignorante,
Não mais só,
Apenas um bêbado

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Bad Memories

Leave this place inside of me
I'll leave this brain inside my head
I'll leave you laid on this bed right now

I've got bad memories in my head
I've got bad memories in my head
I feel my mind spinning all around

Take my hand
I'll show you that I'm about to fall

I've got bad memories in my head
I've got bad memories in my head
I'm stuck inside this dream and I can't go out

I've got bad memories in my head
I've got bad memories in my head
And I can't throw this knife from the inside out

Take my hand
I'll show you that I'm about to fall

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Sample:
http://rapidshare.com/files/290816949/Bad_Memories_Sample1.wav.html

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Nostalgia - Volume dois

Resgatando momentos históricos.
Éramos heróis e ninguém sabia disso, nem nós mesmos..
Mas éramos, e ponto final.

Neste vídeo, estamos comemorando meu aniversário de dezessete anos. Acabou se tornando o vídeo de apresentação da Legendarius (a segunda banda da qual participei em Varginha e, obviamente, a preferida).
http://www.youtube.com/watch?v=cK332sM3XUY

Neste, estamos cantando "Cogumelos Azuis", Ventania, na praça central da cidade de Varginha (onde nasci), em horário extremamente movimentado.
http://www.youtube.com/watch?v=xo7YgMWQZJ0&NR=1

São momentos que provavelmente nunca se repetirão.
Sentimentos grandes passam despercebidos no momento em que se mostram presentes, mas se tornam notáveis e nostálgicos quando passam a fazer parte do passado.

sábado, 3 de outubro de 2009

Harrowdown Hill

http://www.youtube.com/watch?v=lrXtb1QK9hQ

Thom Yorke (Radiohead) no vocal, Flea (Red Hot Chili Peppers) no baixo;
Incrível.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O advogado do Diabo

Algumas coisas me dão vontade de vomitar;
Outras, de dormir.
Há ainda as que me são indiferentes.

Havia o que me fazia amar,
Mas extinguiu-se com minha infância.
O que me fazia chorar
Foi extinto com a vontade de amar.

O segredo?
Este é o mundo do orgasmo,
Fique imundo e aprenda a dançar.